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Pico

Confira o artigo de Aldo Vannucchi, mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia

Aldo Vannucchi

Sábado passado, em 1494, morria um filósofo diferente até no nome, Giovanni Pico. Esse João Pico tornou-se conde, porque descendente dos Picos, família que governava o ducado de Mirandola, na Itália. Mas não foi a nobreza que o imortalizou. Foi sua estupenda precocidade.

Desde a infância, impressionava por seus dotes intelectuais e pela memória prodigiosa. Com apenas 14 anos, partiu para a Universidade de Bolonha, cursando, a seguir, outras universidades européias, com raro brilho. Aos 18 anos, já dominava 22 idiomas e viu a sua biblioteca tornar-se uma das maiores do seu século.

Modéstia não era o seu forte. Com 23 anos de idade, declarava-se capaz de discutir sobre qualquer coisa (de omni re schibili). Até garantia pagar as despesas de quem quisesse vir a Roma, para enfrentá-lo, em uma discussão pública sobre as suas ideias. Dificuldades práticas e a suspeita de que algumas das suas teses fossem heréticas abortaram esse encontro extraordinário. Mas, logo depois, publicou uma obra famosa, com 900 teses explicativas do seu pensamento, base, segundo ele, de todo o conhecimento da humanidade.

Religioso, Giovanni Pico della Mirandola teve como objetivo de vida conciliar religião e filosofia. Curiosamente, combatia com vigor a astrologia, tanto quanto defendia a união indissolúvel entre religião e magia. Chega a escrever que nada prova mais a divindade de Cristo que a magia, porque esta aumenta os poderes humanos.

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Pico é considerado uma das figuras centrais do humanismo renascentista. Conviveu com artistas, como Michelangelo e Botticelli e com o famigerado Savonarola, distinguindo-se, filosoficamente, pelo vínculo com Platão. O ponto emblemático do seu pensamento brilha em suas teses sobre o protagonismo do ser humano no universo e sobre o livre arbítrio. Por essa liberdade de consciência, podemos chegar até Deus como descer até os seres brutos. Viemos ao mundo como a última e mais perfeita obra do Criador, que ele chama de Arquiteto divino, o Demiurgo de Platão. Pico insiste: estamos no centro do universo, mas nos distinguimos dele, porque só nós somos capazes de definir o próprio destino.

Esse é o pico das suas lições para a posteridade. Morreu com apenas 31 anos de idade, mas nos deixou essa proposta formidável, que tem mais de 5 séculos e permanece muito atual : cada um de nós tem que viver esse desafio existencial básico de se fazer por si mesmo, dentro, é claro, do seu espaço-tempo. Hoje, o panorama mundial conspira contra esse ideal. Há sinais de obscurecimento dos valores da pessoa humana. Líderes ameaçadores, como Rodrigo Duterte, nas Filipinas, Viktor Orbán, na Hungria, Matteo Salvini, na Itália e Donald Trump, nos Estados Unidos, parecem encenar que Hitler e Mussolini estão voltando.

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Preocupa, por isso, perceber um incrível crescendo de vozes e fatos desse naipe que cheira nazismo, também por aqui. Dias atrás, por exemplo, em Salvador, a direção do tradicional Colégio Antônio Vieira proibiu alunos de renovarem as matrículas para o próximo ano e excluiu da formatura estudantes do 3º ano do Ensino Médio, porque, em grupo de whatsapps, atacaram mulheres e índios, lançaram piadas homofóbicas e defenderam a criação de um “ministério da tortura, mais importante que o da cultura”. Onde e como beberam tanto fel?

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) — aldo.vannucchi@uniso.br

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