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Philia

Agora é tempo de brasileiro virar amigo de brasileiro, redescobrir a philia, sem a fobia da opção política diferente do outro
Crédito da foto: Vanessa Tenor

Encerrada a campanha eleitoral, dá para resumi-la em duas palavras: fobia e philia. A fobia no passado e a filia do futuro. Fobia todo mundo sabe o que é e muita gente a padece. É pavor ou repulsa persistente de um objeto ou de uma situação. Daí, zoofobia (medo, por exemplo, de gato, cobra ou barata), claustrofobia (horror com lugares fechados) e homofobia (rejeição a homossexual).

O oposto de fobia seria philia, presente em certas palavras, como cinefilia (paixão pelo cinema), bibliofilia (amor aos livros) e a criminosa pedofilia. Essa meia palavra é tão grega como fobia, mas mereceu maior atenção dos filósofos. Aristóteles a define como a afeição por outra pessoa, que redunda em convivência íntima, agradável e benéfica. Ele exemplifica a philia como a ligação entre interessados num mesmo negócio, entre companheiros de viagem, entre companheiros de armas, membros da mesma sociedade religiosa, convivas do mesmo jantar e até o relacionamento de um sapateiro com o seu cliente mais fiel.

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Mas é a philia por opção política que o filósofo aprofunda, considerando-a fundamental na vida tanto das pessoas como da cidade, a pólis. E é nessa luz que espero ver o Brasil pós-eleições. Até 28 de outubro, com tantas ameaças, tantas notícias falsas, tantos ataques pessoais, tanta guerra entre direita e esquerda, tanto ódio, com facada no começo e falcatrua até o fim, pode-se dizer que a nação viveu uma execrável fobia coletiva. Prevalecia o clima de aversão, quando não de agressão, ao outro politicamente divergente. Agora, eleito o novo presidente, precisamos redescobrir a philia, no seu sentido mais natural, bem nosso, bem brasileiro, de amizade.

Ódio, raiva, agressividade, maledicência e mágoas não reconstroem uma nação. Mesmo num governo autoritário, quem defende a democracia — todos nós — não tem arma na mão. A democracia é um espaço de inclusão social, de respeito à liberdade dos outros e respeito pelas minorias. Por incrível que seja, agora é tempo de brasileiro virar amigo de brasileiro, redescobrir a philia, sem a fobia da opção política diferente do outro.

Como salvar, então, a philia, num país agora politicamente rachado e com problemas gravíssimos que deveriam ser enfrentados também pelo candidato derrotado? Só pode ser com senso de responsabilidade e dedicação de todos pela mesma causa. Joga contra o País quem insistir em antagonismos corporativos, morais, ideológicos. Oposição deve haver e forte, mas não autocentrada e antipopular. A coesão democrática e republicana exige partidos e cidadãos que aceitem alternância de poder, sem taxar de inimigos grupos e pessoas de cabeça diferente.

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Sempre achei exagero Roberto Carlos cantar “eu quero ter um milhão de amigos”, porque amigo de todos é amigo de ninguém. Cortemos, hoje, esse verso e cantarolemos os outros da mesma canção: “Quero levar o meu canto amigo/a qualquer amigo que precisar… eu quero crer na paz do futuro/eu quero ter um quintal sem muro/quero meu filho pisando firme/cantando alto, sorrindo livre… eu quero amor decidindo a vida/sentir a força da mão amiga….”

Essa força da mão amiga tem que enfrentar toda fobia do Governo, do Congresso Nacional e do empresariado, para salvar a vida de 12 milhões de desempregados, com a nossa mais séria e intensa philia.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) — aldo.vannucchi@uniso.br

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