Percepções e reflexões de um semeador de ideias sobre o brincar

Por

José Geraldo Goldoni Vestena

Vivemos um momento em que a sociedade e a família têm mudado as relações com os jogos e as brincadeiras. Suponho que a pluralidade cultural, questões estruturais, logísticas, estresse e outros fatores têm impactado negativamente na maneira com que a família e a sociedade lidam com o brincar.

Tenho visto o brincar sendo tratado de forma reducionista. A meu ver, a exploração do lúdico, dos sentidos, das capacidades físicas, das habilidades motoras e psicomotoras vêm diminuindo bastante nesses últimos tempos; talvez pela limitação dos espaços, dos tempos, e, possivelmente, pelo próprio conforto e comodismo que as novas tecnologias oferecem.

Penso que o ato de brincar tem sido gradativa e sistematicamente retirado dos ambientes familiares, sociais, e, infelizmente, educacionais.

Entristece-me o contato com realidades escolares em que as crianças são privadas de correr, jogar, brincar por conta do barulho ou do possível perigo de quedas e machucados, possíveis conflitos ou por receio da criança se sujar.

Entristece-me, mais ainda, o contato com realidades familiares em que quase não há brincadeiras e interação com as crianças por falta de tempo, de comodidade, ou pior, por falta de afeto.

A educação infantil sempre teve em seus documentos norteadores e nos seus processos de ensino e aprendizagem, o tripé: brincar, cuidar e educar. Porém, ultimamente, tenho a sensação de que esse tripé tá meio manco. Parece-me que estamos ficando só com os “pés” do cuidar e do educar.

Também, sinto que a escola e a família acreditam que, por conta desse mundo globalizado, quanto mais cedo a criança for escolarizada e quanto mais acesso à informação ela tiver, maior será o sucesso escolar. Porém, vejo um risco nessa possível escolarização precoce, negligenciando ou suprimindo a cultura da infância e do brincar.

Acredito que a educação não soube se fortalecer para explicar seus métodos de ensino à família e à sociedade, não soube “vender esse produto”, e, quando a própria escola desvaloriza ou desconsidera o brincar como oportunidade, ela está dando sinais de que o mesmo não é importante. Daí, a família entra na escola e cobra caderno, lição, reclama que a criança vai na escola e só brinca, como se isso fosse pejorativo.

Em minha opinião, falta mais diálogo entre os profissionais da educação e o fortalecimento do vínculo com a família, para que esta entenda o significado do trabalho da escola.

Creio que falta estabelecer uma relação de responsabilidade ética, cumplicidade cultural e profissional com o brincar, assim como com o que ele proporciona. Aí, com certeza, teríamos crianças, ao menos, mais felizes no seu processo evolutivo, no seu processo formativo.

Infelizmente, tenho observado uma queda qualitativa nas formações de base e uma diminuição gradual dos processos formativos contínuos, que resultam na ruptura do diálogo fundamental para o alinhamento de ações, e, na falta de manutenção dos ideais que almejam acessibilidade, diversidade e qualidade no ensino.

Hoje, o conhecimento técnico-científico evoluiu bastante, a gente tem muito conhecimento disponível, uma literatura abundante. Mesmo assim, as boas práticas e as boas estratégias não acompanharam o mesmo ritmo. Parece-me que a “prática” foi sufocada pela “teoria”. Uma pena!

É na prática que tornamos os ambientes mais agradáveis, mais humanos, possibilitando o estabelecimento de relações afetivas positivas entre a criança, seus pares, os adultos e o conhecimento.

No meu modo de entender, possíveis soluções envolvem o despertar da atenção dos profissionais que atuam e militam na educação, bem como o despertar da atenção dos pais para a importância do ato de brincar como sendo uma poderosa ferramenta de ensino e aprendizagem, motivando-os a serem protagonistas de uma reflexão efervescente, rica e dinâmica sobre as práticas desse brincar.

Por isso tudo, cada vez mais, convenço-me da necessidade de termos profissionais preparados e capacitados para apresentar, estimular e desenvolver jogos e brincadeiras que oportunizem o desenvolvimento integral do ser humano e, assim, substituam níveis conformistas de participação por níveis críticos e criativos.

José Geraldo Goldoni Vestena é profissional de Educação Física e Pedagogo, Especialista em Lazer e Recreação; Membro da Equipe Multidisciplinar do Centro de Referência em Educação-Sorocaba/SP; Palestrante convidado do Conselho Regional de Educação Física CREF (desde 2014)