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Pelo WhatsApp!

Neusa Gatto

Terminou com você pelo WhatsApp? Mas que cara de pau. Ela é muito folgada diz o amigo pro outro já meio embriagado.
Não, não foi bem assim, responde que foi abandonado.
Como não? Você não disse que ela mandou ver num áudio daqueles pedindo pra sumir da vida dela?
É… …ela é louca. Se acha o último biscoito do pacote. Cheia de “lero lero”.
Porque você disse isso, disse aquilo… e que me ofendi… e tal.
Cara, você não tem ideia de quanta discussão babaca tivemos.
Olha, fala o outro, vamos pegar uma cerveja.
Claro, só bebendo mesmo…
Os dois se sentam no banco do quintal da casa. O cachorro também tá por ali. Deitado, só levanta os olhos quando eles chegam. Abrem a cerveja e tomam longos goles…
Boa, diz um… Ótima, responde o outro… Vou botar um som. Se levanta vai até o aparelho, acha um CD….
Começa a música…
Amy Winehouse? Você quer mesmo sofrer com esse fora… dá licença… reclama o companheiro de desabafo.
Nem vi o que coloquei. Deixa a Amy, gosto dela…
O outro dá de ombros… Pensativo… ele escuta o som. Nada fala.
Olha, quebra o silêncio o colega, acho até que ela gosta de você. Dá pra ver que, juntos, se dão bem. Curto ver vocês… Ah! não me fala isso! É o que mais me encuca. Tanta coisa legal. Tanto tempo desperdiçado com bobagens. Fico aqui pensando porque não aproveitei mais os momentos… Apaixonadão? Ri gostoso o confidente. É… ela desapareceu do mapa.
Vai ver que mudou de casa, foi viajar, sei lá… tenta amaciar o assunto o amigo.
Nada, tá feliz da vida por aí, já me disseram… Parece que, pra ela agora, é o “eu contente” e o resto…
O cachorro se levanta. Alguém está no portão. Os dois olham pra frente da casa e, realmente, há uma sombra que se vê pela fresta…
Ele se levanta, vai até lá, abre a porta e… Oi, tudo bem? Tava passando por aqui e resolvi dar um pulo na sua casa pra ver como você está.
Ele para. Estatela. Olha pra ela. Um hiato de tempo se passa ali. Só consegue dar um “oi, tudo bem?”. E, de novo, o silêncio… Ela quebra a monotonia com um grande abraço nele. Fica paralisado. Não sabe como reagir. Então, também a abraça. E, num segundo, todo o amor e paixão afloram. Sente o perfume do seu cabelo. Da sua roupa. Dela.
Se desenlaçam e ele dispara a falar: tou ótimo, fazendo uma porção de coisas, uns projetos aí… tocando a vida… bem, muito bem…
Que bom, fico feliz, diz ela.
Como ele não convida a entrar ela se despede: bom, foi só um alô mesmo… já vou indo…
Espera, não vai não, por favor fica aqui um pouco mais. Tava mesmo com saudade de você. Falava isso agorinha. Três semanas… sem ver você. Parece uma eternidade. Toma uma cerveja comigo. Briga também, não tem problema. Fala aí da vida em outros planetas, do misticismo das relações, de ética, arte o que for. Gosto até das nossas diferenças de opiniões. Das discussões. Me lembro de todas, todos os dias… sempre… sempre me lembro de você.
Os pensamentos chegam borbulhantes. Tudo perfeitamente encadeado mentalmente. Ela só olha pra ele. E ele pra ela. Balança a cabeça rápido, como a se recompor. Dissipa os pensamentos…
Também fiquei feliz em te ver, se limita a dizer ele. Lá dentro, o amigo grita: e aí, quem é? No portão, ela parece querer dizer alguma coisa… mas, apenas dá um beijo no rosto dele. Entra no carro ali ao lado e vai. Ele acena. Sorri. Se junta ao amigo, não, sem antes, passar pela cozinha e pegar mais duas cervejas. Chega com as geladas nas mãos sob o olhar interrogativo do outro. Nada. Não, não era ninguém não. Só uma pessoa à procura de alguém que pensava existir aqui…

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Neusa Gatto é jornalista e produtora de vídeos.

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