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Passaredo

Passaredo
Crédito da foto: Vanessa Tenor

Edgard Steffen

Tenho em mim um atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios. (Versos de Manoel de Barros)

Creio que vocês já presenciaram esta cena. Bandos de pombos ou pássaros disputam migalhas lançadas ao chão. Com andar de passos incertos, menino caminha em direção às aves procurando pegar alguma. Voo súbito e curto frustra o inocente. Na fase mágica do pensamento o menino não consegue entender por que passarinhos recusam sua companhia. Por que lhe faltam asas para alcançá-los?à Por quê?à

Ando pensando muito em passarinhos. Talvez porque a idade me devolveu às incertezas dos passos. Reminiscências vicariantes voam através dos tempos, e me colocam num sítio onde vivi como se fosse personagem inventado por Monteiro Lobato.

Pica-paus são abundantes na zona rural brasileira. No Capão Grande, onde morei na fase pré-escolar, eles existiam. Mas não me lembro de nenhum amarelo. Amarelos eram canários, pintassilgos, bem-te-vis. Rolinhas, marrons ou acinzentadas, faziam ninhos nas árvores e arbustos próximos à casa. Algumas chegavam — tímidas e ousadas — disputar quireras jogadas para alimentar pintainhos das galinhas caipira. Comum o encontro de sabiás-laranjeiras, sanhaços, curiós e tico-ticos. Após as chuvas, os joões-de-barro colhiam material para construir suas casinhas em galhos no alto das árvores. Em plumagem negra, chupins e tizius costumavam pousar nos fios das cercas, enquanto anus-pretos refestelavam-se de carrapatos no lombo do gado e os vira-bosta faziam no chão do pasto o que o nome indica. De longe, bandos de anus-brancos preferiram pousar nas cercas; revoavam juntos à cata de alimentos.

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Três especiais lembranças.

Ouvir o onomatopaico “pinhééé” de um grande gavião perseguido, no ar, por valente casal de tesourinhas. Defendiam seu território e ninho. O nome desses passarinhos se deve à longa cauda — maior que o corpo — que lembra lâminas de uma tesoura. A destreza dessa ave plumada em branco e preto, provê a captura de insetos em pleno voo.

Gostoso observar casal de corruíras instalado no oco de mourão de cerca, bem perto da casa velha. Em rápidas idas e vindas, traziam fios de palha; pronto o ninho, depois de algum tempo, era possível perceber que portavam pequenas larvas e insetos para a prole. Canto inconfundível.

Entre aves de hábitos noturno, corujas, curiangos e urutaus. Estes muito bem camuflados. Nunca topei com nenhum urutau. Nas silenciosas noites da roça, principalmente quando fazia calor, ecoava o lúgubre canto do urutau desde a mata ciliar do córrego. Triste. Fantasmagórico. Segundo lenda, que eu aprenderia anos mais tarde, era o lamento de jovem índia cujo pai matara o amado pretendente,

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O Capão Grande mudou de nome. Identifica-se mais com musical da Broadway que com árvores e aves. Sofisticado condomínio de luxo, cheio de gente presa numa gaiolona por medo de gente que não gosta de gente. Saem somente em gaiolas menores equipadas com máquina capaz de fazer som mais alto que a passarada.

Não sei se por atraso de nascença, ou por abundância de felicidade naquele lugar maior que o mundo, continuo colecionando desperdícios, mas não tenho vontade de voltar para lá.

Luxuosas mansões, piscinas e carrões não podem ser mais lindas que a lembrança do passaredo voando livre entre as árvores. Camuflados dentro em mim, como urutaus sem lamentos, talvez ainda coexistam o menino passarinho e a vontade de voar.

Nota do autor: Von Ihering no Dicionário dos Animais do Brasil afirma que jamais esquecerá o canto do urutau (Nyctibius griseus) ouvido na região do rio Piracicaba; “quatro notas espaçadas, decrescentes, talvez dó-sol-mibemol-dó, tão harmônicas na afinação e no volume, que imitavam perfeitamente um oboé”.

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Edgard Steffen é médico pediatra e escreve para o Cruzeiro do Sul – edgard.steffen@gmail.com

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