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Os segredos da redação nota mil – parte 1

Veja dicas para uma dissertação argumentativa dentro do chamado padrão de qualidade Enem

João Alvarenga

Obter nota mil na prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio, o disputadíssimo Enem, é um sonho que povoa a vida escolar de milhões de brasileirinhos que, todos os anos, enfrentam o tenso rito de passagem da adolescência à idade adulta. Todavia, o sonho de tantos é, na verdade, uma conquista cada vez mais restrita a um seleto grupo de estudantes. Ou seja, sonhar não basta, é preciso ir à luta! Pois, no caso específico dessa prova, muitos são chamados, mas poucos os escolhidos, embora existam inúmeros cursinhos que exploram várias estratégias, a fim de que os candidatos possam produzir um texto, no mínimo, satisfatório.

Ou seja, uma dissertação argumentativa (com senso crítico e proposta de intervenção pragmática), dentro do chamado padrão de qualidade Enem. Produção que, em tese, garantirá o passaporte carimbado com destino às melhores universidades públicas ou privadas do país. No entanto, uma dúvida assalta a mente dos estudantes que estão prestes a concluir o ensino médio: afinal, qual é o segredo da redação nota mil?

Para espanto de muitos professores de redação, o jovem paulistano Lucas Felpi que, no exame do ano passado conquistou a almejada nota máxima na redação, tem essa resposta, pois “inventou” a fórmula do sucesso. Detalhe: sua redação configura entre os únicos 55 textos que obtiveram nota mil no último certame, cujo tema — Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet — segundo os especialistas, foi um dos mais difíceis dos últimos vinte anos. Para muitos, a proposta teve um caráter elitista, pois nem todos tinham o domínio do termo “algoritmo” e, dependendo da região, o acesso à web é problemático. Algo que dificultou o entendimento da comanda da prova.

Assim, em vídeo postado nas redes sociais, Felpi passa dicas fundamentais para quem deseja seguir pelo mesmo caminho trilhado pelo garoto prodígio. O jovem, didaticamente, consegue transformar porco espinho em pudim, ou seja, um assunto considerado complexo se torna digerível. Durante o período de preparação, fez uma redação por semana e, no último ano do médio, além de fazer 25 textos, releu sua produção, a fim de confrontar as referências que poderia empregar na prova. No texto, citou o livro “1984”, de George Orwell, e a série “Black Mirror”, da Netflix, para sustentar a argumentação, com foco na solução do problema.

Além disso, quatro palavrinhas mágicas marcaram seu método: leitura, prática, padronização e adequação. O jovem é enfático quando defende a necessidade de leitura para construção de bons argumentos. Algo que encontra eco na voz dos professores, pois a leitura é a base de tudo! Tanto para escrever corretamente quanto para entender o sentido dos vocábulos.

Também é notório o fato de que a escrita e a reescrita do texto é algo salutar para aperfeiçoar aquilo que, muitas vezes, está longe do modelo ideal. A padronização é um esquema que Felpi adotou e que, de certo modo, pode ajudar, uma vez o “molde” servirá para qualquer tema proposto. Mas, há um risco: engessar a criatividade. E isso não é confortável.

Destarte, acredito que o aluno, durante o seu percurso pré-prova, deve explorar outras formas de construção textual e utilizar o modelo que mais lhe confere segurança. A adequação do seu texto ao estilo da prova é importante porque, no dizer de Felpi, o candidato não escreverá para agradar a si mesmo; mas, convencer a banca de que: 1) tem conhecimento do assunto; 2) sabe do que se trata; 3) tem opinião crítica e, 4) tem uma solução plausível. Na próxima quinzena, darei sequência a esse assunto com uma abordagem sobre o chamado método “Kaizen Textual” de redação. Até lá!

João Alvarenga é professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura, produz e apresenta, com Alessandra Santos, o programa “Nossa língua sem segredos”, que vai ao ar pela Cruzeiro FM (92,3 MHz), às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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