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O uso dos hormônios versus a negação do envelhecimento (parte 2)

Confira o artigo de Luiz Ferraz de Sampaio Neto, professor de Ginecologia da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUCSP

 

Dando continuidade e finalizando o artigo anterior, destacamos que o Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal da Menopausa considera como indicações clínicas para o uso de tratamento com hormônios na transição menopausal a presença de sintomas vasomotores (ondas de calor), a denominada síndrome geniturinária da menopausa (que associa urgência miccional com incontinência urinária, cistite de repetição e vagina atrófica), a prevenção da perda de massa óssea (para as mulheres com elevado risco de osteoporose) e a menopausa precoce (antes dos 40 anos).

A avaliação do perfil da paciente levará em conta o risco individual e familiar de apresentar eventos trombóticos, câncer de endométrio e mamas, bem como os exames subsidiários para caracterizar estas situações clínicas. A relação de risco/benefício dependerá do raciocínio clínico que o ginecologista desenvolve a partir destas informações.

Há alguns pontos que norteiam os princípios terapêuticos no uso de hormônios na transição menopausal: usar hormônios semelhantes àqueles que os ovários produziram ao longo da vida da mulher, na menor dose possível, para corrigir as situações decorrentes do hipoestrogenismo; iniciar no período denominado “janela de oportunidade” e com supervisão constante durante o tempo de uso.

A “janela de oportunidade” é um conceito relativamente recente. Ele explica os benefícios do uso destes hormônios quando oferecidos no momento oportuno, ou seja, em torno de mais ou menos cinco anos da menopausa. A explicação apresentada para este conceito é que a mulher ainda não ficou tempo demasiado sem ter hormônios, portanto, aqueles processos degenerativos que acontecem pela falta desses esteroides ovarianos ainda não se estabeleceram.

Decorridos os anos suficientes de uso de tratamento hormonal na transição menopausal, quando for suspenso o uso desses hormônios — após a finalização da tal “janela de oportunidade” –, os efeitos serão mais brandos, provavelmente por fenômenos adaptativos que aconteceram durante o tempo de uso.

O hormônio fundamental para corrigir os efeitos da parada de função dos ovários são os estrogênios. Contudo, há que se associar outro hormônio ovariano (a progesterona, ou hormônios que possuam efeitos semelhantes a ela, os progestógenos) para evitar o risco de desenvolvimento do câncer uterino.

O uso da testosterona, hormônio caracteristicamente masculino, é controverso para mulheres. Biologicamente, a mulher também produz essa classe de hormônio nos próprios ovários, em quantidades muito inferiores aos homens. Porém, o local em que ele é produzido na estrutura ovariana pouco se altera após a menopausa.

A redução discreta na transição menopausal não costuma provocar sintomas. Mas há autores que consideram que possa existir algo denominado “síndrome do déficit androgênico do climatério”, quando, em decorrência da queda da testosterona, as mulheres possam apresentar fadiga, redução de massa magra e diminuição na libido sexual.

Baseado nessa premissa, pode ser suprido o déficit androgênico com baixas doses de testosterona. Isso parece ser mais indicado nas situações em que a mulher sofreu a retirada cirúrgica dos ovários (ooforectomia) por algum problema no útero ou nos ovários.

Há importantes dúvidas se a prescrição de hormônios masculinos para mulheres não represente a excessiva “biomedicalização” da vida. Segundo muitos autores, o incremento de uso desses fármacos poderia representar os resultados da articulação densa entre pesquisa biomédica e indústria farmacêutica com objetivos de ampliar o mercado consumidor. Cria-se uma necessidade e se fornece o tratamento com respaldo científico para tanto.

Por fim, há que se destacar que ainda não existe hormônio que possa interromper o envelhecimento humano; contudo, há muitas coisas que podem ser feitas para diminuir os impactos do envelhecimento individualmente. Muitas delas são sobejamente conhecidas e têm baixo custo para se praticar: fazer atividade física, manter uma alimentação saudável, perder peso, parar de fumar, parar de abusar do álcool, dormir bem, ter bom humor, viver em família, cultivar a espiritualidade, aprender um novo idioma, encontrar motivação ajudando o próximo, entre outras coisas boas da vida.

Mas, talvez, o mais importante de tudo seja aprender a aceitar que todos nós envelheceremos. Somente não terá esta experiência de vida aquele que morrer antes!

Luiz Ferraz de Sampaio Neto é professor de Ginecologia da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUCSP.

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