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O som de um outro tambor

Confira a coluna Reflexão, de Geraldo Bonadio

Quem, em Sorocaba, trabalhou na antiga tecelagem da Barbero, na rua Padre Madureira, conheceu ali, entre os barulhentos teares de que brotavam peças de linho comum, outros, maiores, cuja tramas e fios se moviam sob o comando de cartelas perfuradas, concebidas por um engenheiro francês chamado Jacquard. Deles saiam peças elaboradas, com elementos em relevo, que faziam da loja da empresa, na Praça Fajardo, centro de visitação de clientes vindos de todos os cantos do Brasil.

Não se imaginava que, repensando tais cartelas, alguém estava criando, em outros lugares, cartões perfurados que tornaram possível ao homem conversar com enormes engenhocas. E, menos ainda, que estas, décadas depois, ficariam cada vez menores e estariam presentes nas mesas e nas mãos de milhões de pessoas, como notebooks ou smartphones que há muito tornaram cartelas e cartões desnecessários.

Os desconcertantes caminhos do avanço científico e tecnológico integrado às nossas vidas devem dar, como resultado, uma compreensão maior de nossa parte em relação àqueles cujo modo de pensar, agir e trabalhar destoam do padrão. Haverá casos em que teremos de admitir, com o pensador Henry David Thoreau, que, por vezes, um homem marcha com passo diferente dos companheiros porque ouve outro tambor.

Deus faz das pessoas criaturas surpreendentes. Ao longo da jornada o vemos chamar algumas, não raro as mais imprevistas, a cumprirem papéis que, em nossa alta prosápia, entendemos que não têm como exercer.

Sempre que o desconcertante mover do Eterno se faz sentir na terra, cedo ou tarde acabaremos por reconhecer que ele tudo determina para o nosso bem e acertar o passo pelo outro tambor que a sua vontade está fazendo soar.

“O sopro, onde quer, sopra. E ouves a sua voz. Mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do espírito.”

Evangelho de João 3:8
Frederico Lourenço

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