O sensível ‘Histórias mínimas’ no Cine Reflexão
Um “road movie” em que os problemas dos personagens se resolvem conforme a história transcorre. Crédito da foto: Divulgação
Nildo Benedetti - [email protected]
Em Fitz Roy, na região da Patagônia Argentina, Maria Flores recebe o aviso de que foi uma das três mulheres sorteadas para participar de um programa de TV em que serão oferecidos prêmios de objetos de casa (incluindo um ambicionado multiprocessador) e uma estadia na praia de Camboriú para a vencedora e para mais dois acompanhantes. Levando a criança no colo, ela se dirige de ônibus à sede da TV, no porto marítimo de San Julián, a 300 km de distância.
À beira de uma estrada, também em Fitz Roy, um homem de 80 anos, Don Justo, que há meio século vive no local, passa as horas tomando chimarrão, sentado na frente da sua mercearia que agora é administrada pelo filho e pela nora. Sua vida monótona e sem perspectivas é abalada pela notícia de que seu cão Malacara, que fugira há três anos, foi visto em San Julián. Durante a noite, burlando a vigilância do filho, ele principia sua viagem a pé pela estrada. Recebe carona de Júlia, uma bióloga que vai a San Julián pensar sobre sua vida. Depois recebe carona de Roberto, um vendedor de emplastros de emagrecimento que também vai a San Julián. Roberto pretende visitar uma criança aniversariante, que ele nem sabe se é menino ou menina; mas seu interesse é de agradar a viúva Estela, a mãe da criança, que tem uma loja em San Julián. Roberto leva a tiracolo um livro sobre técnicas de venda que, diz, mudou sua vida há cinco anos, depois de ser demitido do emprego.
As trajetórias desses personagens se cruzam durante suas jornadas.
Em uma região escassamente habitada, próxima aos Andes, as relações humanas, mesmo entre pessoas que não se conhecem, são leves, mais fáceis, sem falsa cordialidade; essa condição é exposta com sutileza. A hostilidade aparece no estúdio da TV: terminado o programa, uma esperta participante, de olho no multiprocessador, convence a ingênua Maria Flores a trocarem os prêmios; e as atitudes dos funcionários, incluindo a do sorridente e afável apresentador do programa, fora das câmeras se tornam rudes, mostram certo desprezo pelas competidoras. Mas, tudo isso é exposto sinteticamente, sem exageros.
O velho Justo que, impassível, aguardava a morte olhando para uma estrada em que raramente passam veículos, dá novo sentido à existência quando procura e encontra o cão Malacara. Roberto vive o entusiasmo da paixão e sua meta é a conquista de Estela; embora de meia idade, comporta-se como um adolescente, como geralmente acontece nesses casos. Júlia, bióloga, passa por uma crise -- possivelmente afetiva. Maria Flores, dona de casa pouco instruída é o oposto de Júlia mas, aparentemente, é mais feliz porque se satisfaz com menos.
“Histórias mínimas” é um filme humano, com personagens cativantes. Cada um busca encontrar solução para os problemas de várias ordens que enfrentam e a viagem que empreendem a San Julián é metáfora dessa busca. A associação de viagem com a uma jornada ao interior dos personagens é uma das características dos “filmes de estrada” (road movies).
Serviço
Cine Reflexão
“Histórias mínimas”, de Carlos Sorin
Hoje às 19h na Sala Fundec (rua Brigadeiro Tobias, 73)
Entrada gratuita