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O Resto é Silêncio

Edgard Steffen 

Por vós São Paulo é glorificado. Valentes, salvem os Paulistas dos batalhões constitucionalistas!

(Versos de Benedito Cleto)

Eu era muito pequeno quando ele voltou. Transcrevo o que os mais velhos me entregaram. Depositou o capacete de aço e a sacola caqui de alça comprida sobre o bufê. No capacete, sulco denunciava a trajetória ricocheteante de uma bala. Sentou-se à cabeceira da mesa de jantar e contou para a família o que e como vivera as últimas semanas. Ainda vestia a farda caqui, suja de barro e sangue. A barba de muitos dias ampliava o cansaço e desalento. Tristeza de quem vira morrer a esperança de um País melhor. Melancólica aflição pela lembrança de companheiro de trincheira, vísceras expostas por rajada de metralhadora, disparando seu fuzil como se em transe. Abatida testemunha do empenho de gente que lutou sem estar preparada, amparada e municiada adequadamente. Guerreiros improvisados contra o exército profissional.

A família tomou ciência de que, ao lado daquele festival de orgulho cívico concentrado em todos os setores, das convocações para o voluntariado ao som de marchas e poesias, havia jovens que passariam fome, frio, medo nas trincheiras do ideal constitucionalista. Terminado o depoimento, tomou com avidez a sopa que mamãe preparara. Foi ao banho quente e lençóis limpos (pela vez primeira desde que se alistara).

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E mergulhou no silêncio.

Entre recordações de minha infância, alguns objetos. Restos daquele soldado e dois anéis com a inscrição “Dei ouro para o bem de São Paulo”. Eram substitutivos das alianças de meu pai e minha mãe. As entregaram para que o movimento MMDC triunfasse. Mais que esperança da prometida reforma constitucional ou derrota de Vargas, esperança de que ajudasse a volta ao lar de seu primogênito.

Vale a grande renúncia derradeira/ das mãos que acariciam maternais / o menino que vai para as trincheiras / e que talvez… não volte mais…*

Na pequenina Indaiatuba de 1932, outros haviam partido, embalados pelo sacrifício de Martins, Miragaia, Drausio e Camargo geradores do acrônimo MMDC. Partiram incentivados pela retórica dos locutores, versos dos poetas e a simbólica Bandeira das 13 listas.

Bandeira de minha terra! / Bandeira das treze listas! / São treze lanças de guerra / Cercando o chão dos paulistas!*

Um não voltou. O humilde entregador de marmitas João Pereira dos Santos, apelidado João Bomba. Uma bala o alcançara em Capão Bonito.

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Hás de voltar, meu filho! E não voltaste./ Pelo bem do País que tanto amaste / o teu corpo caiu, morreu teu passo / de tua mocidade generosa / ficou somente a farda gloriosa / tinta de sangue e o capacete de aço.**

Gilberto Reinaldo Steffen foi meu herói. Apresentou-se voluntário em Amparo, onde trabalhava no combate às pragas do café. Foi levado às trincheiras dos piores combates. Lutou no túnel da Mantiqueira no batalhão que tentava impedir a passagem das tropas mineiras.

Muitos anos após, gostava de passar minhas férias em sua casa. Inteligente e culto, foi meu guru na adolescência. Indicava-me livros a ler, filmes a assistir, projetos de vida a cumprir. Conversávamos até altas horas. Sobre coisas e sonhos. Tudo. Mas sobre a saga constitucionalista, nenhuma palavra. Conforme o poema “Oração ante a última trincheira”*

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É o silêncio que faz a última chamada…

É o silêncio que responde:

Presente!

(*) Guilherme de Almeida

(**) Oliveira Ribeiro Neto Ao Herói Desconhecido

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço – edgard.steffen@gmail.com

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