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O relato de um sonho

Artigo escrito por Vanderlei Testa, jornalista e publicitário, escreve às terças-feiras no jornal Cruzeiro do Sul
O relato de um sonho
Crédito da foto: Arte VT

Vanderlei Testa

O relato de um sonho: uma viagem para dentro de si mesmo. Vou contar um sonho que tive recentemente. Estava escrevendo sobre “A primeira agência no mundo que leva as pessoas a viajar para dentro de si”. No meu sonho o nome da agência chamava Anjo Tur. E fui sonhando e pensando. Como deve ser o sonho de viagem do autista? E de quem tem Alzheimer? Como faria para levá-los comigo.

A primeira agência de viagens no mundo existiu como uma empresa britânica chamada Cox & Kings e foi criada em 1758, ou seja, no século 18. O personagem empreendedor que ficou na história chama-se Thomas Cook. Os historiadores afirmam que desde 1841 já existiam grupos religiosos fazendo excursões em países europeus. Conta-se que o Thomaz Cook fretou um trem para levar os participantes de um Congresso Antialcoólico, na Inglaterra. Seu maior feito aconteceu em 1872 levando seus clientes para uma volta ao mundo em 222 dias de viagem. Esse sucesso desencadeou a evolução do turismo mundial.

Com o progresso das companhias aéreas comerciais a parir de 1920, houve um olhar diferente pelos agentes de viagens embrionários em fazer dessa atividade, um negócio próspero. Aqui no Brasil, em 1911, uma família de nome Cinelli foi à pioneira no Rio de Janeiro a criar uma agência de viagens.

Essa introdução que escrevo acordado me faz lembrar sobre o que sonhei dias atrás em sono profundo. Lembro que, durante o meu sonho, eu queria fundar uma “agência de viagens” que levasse a pessoa a conhecer um lugar muito perto e, ao mesmo tempo, distante de sua vida. Seria uma viagem para dentro de si mesmo. Parecia ser, no sonho, loucura essa aventura humana na agência “Anjo Tur”.

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Eu imaginei no sonho os terapeutas, psicólogos, especialistas em regressão, hipnotizadores, conseguindo levar as pessoas a relatar “suas viagens” ao passado. Bem que eu poderia fazer um “turismo” alegre e animado dentro de cada pessoa. Os fatos e acontecimentos em uma viagem ao redor de si mesmo foram surgindo na mente de cada pessoa do grupo que me acompanhava. Fui o primeiro a experimentar essa aventura no meu sonho. Acredito que estava em um sonho que os especialistas chamam de quinta fase do sono. As fases dos sonhos: a primeira é a do adormecimento; a segunda fase, do sono mais leve; na terceira, o nosso corpo inicia o processo do chamado sono profundo; na quarta fase, estamos chegando à reposição das energias do desgaste das últimas 24 horas — segundo os estudiosos do sono, é quando o corpo repõe as energias, liberando os hormônios ligados ao crescimento e ao processo de recuperação de células e órgãos; aí vem a quinta-fase — pela qual muita gente passa, mas não se lembra de nada ao acordar –, que é a fase dos sonhos esquecidos.

Voltando ao meu sonho, acessei lá no fundo da “alma” um lugar de paz e harmonia. Eu estava leve e, em um lugar maravilhoso, junto do meu “anjo guia”. Havia uma relva verde e um uma vista maravilhosa. Adiante, um rio com uma cachoeira que alimentava suas águas, descia parecendo um grande véu branco. Pássaros voavam alegremente e os seus cânticos formavam uma sinfonia na brisa que exalava perfume da correnteza. Viajando mais para dentro do meu ser, cheguei a uma dimensão infinita de sono. O sonho era tão real que eu vivia cada segundo em um mundo imaginário. Quando acordei dei conta que estava novamente na minha cama.

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Nestes meses de isolamento social, cada pessoa busca preencher seu tempo com as coisas que lhe agradam, como o João Pedro em desenhar. Dedico o artigo aos que nasceram com autismo e aos que estão com a doença de Alzheimer. O nome técnico do autismo é Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Na maioria dos casos são pessoas que apresentam déficit na comunicação social e interesse restrito e movimentos repetitivos, entre outros. A viagem ao interior de uma criança ou jovem com autismo deve ser única. Quais seriam os seus sonhos? As suas imaginações e desejos? Creio que só Deus para saber o roteiro dessa viagem de um sonho da criança ou adolescente autista.

E dos adultos com Alzheimer? Pais e amigos que por tantos anos convivemos e conhecemos cada sentimento podem estar entre as pessoas com Alzheimer. Qual é o sonho deles nessa fase triste de sua vida? Considerada uma doença neurodegenerativa progressiva, ela se apresenta com deterioração cognitiva afetando a memória em curto prazo. Ficam muitas vezes dependentes de determinados objetos para se identificarem. Um caso que vi recentemente: um amigo estava em busca de um prato de louça com determinado desenho. A sua mãe, com Alzheimer, só conseguia se alimentar com esse modelo de prato do seu passado. Depois de uma vida de mais de 70 ou 80 anos, será que há sonhos lá no fundo da “alma” de uma pessoa com Alzheimer?

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Viajei neste artigo pela inspiração das excursões que fazemos diariamente em nossos sonhos. Senti durante um momento a beleza do sonho que vivenciei e a reflexão do que doenças como o autismo e Alzheimer podem transformar nas vidas das pessoas. Creio que toda mensagem escrita ou falada tem os seus significados e intenções divinas. A humanidade com a Covid-19, precisa refletir e “viajar mais para dentro de si”. Assim, cada um irá buscar maior relacionamento humano, para que as pessoas ao seu redor, em família, possam sonhar e viver com mais amor, força e beleza interior.

Dedico o artigo, em especial, ao jovem João Pedro, filho da Andréia e do Anselmo. Ele fez 19 anos neste mês. “O João Pedro é a certeza de quanto Deus ama a nossa família e o quanto somos especiais. Obrigado Deus pela graça de podermos aprender com o João a ser grato por todas as coisas que acontecem em nossas vidas”.

Vanderlei Testa, jornalista e publicitário, escreve às terças-feiras no jornal Cruzeiro do Sul e aos sábados no www.blogvanderleitesta .com e www.facebook.com /artigosdovanderleitesta

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