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O lado pedagógico da internet

Nossa língua sem segredos

João Alvarenga

Nos artigos anteriores, mostrei alguns aspectos negativos relativos ao uso excessivo da internet, por parte dos adolescentes, que passam horas entretidos, sem dar atenção aos estudos. Apesar de haver muitas críticas a sites que disseminam sentimentos reprováveis, nesta abordagem mostrarei que a web pode ser uma grande aliada da educação. Primeiro: não se deve demonizar tal sistema, pois o problema está na forma equivocada com que muitos internautas utilizam as redes sociais.

Polêmicas à parte, acredito que essa ferramenta pode ajudar os educadores, se souberem orientar seus alunos sobre o modo correto de interagir com esse recurso. É inevitável admitir que o emprego do computador veio para ficar e, no dizer de Bill Gates, porta-voz do “admirável novo mundo”, isso é um caminho sem volta. Desse modo, não adianta o professor bancar o “Dom Quixote”, ou seja, lutar contra ‘os moinhos virtuais’ que formam os incontáveis rizomas. Na verdade, o lado pedagógico da internet consiste em mostrar aos imberbes o modo inteligente de como usufruir dos inúmeros benefícios que ela possibilita, quando o propósito maior é a construção do saber de maneira criativa e libertária.

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A título de ilustração, apresento um exemplo banal: vamos supor que, na aula de produção textual, o professor tenha proposto que os estudantes façam um artigo de opinião sobre a epidemia de dengue que afeta Sorocaba. Detalhe: de forma propositada, o docente não preparou, previamente, nenhuma comanda para essa atividade. Afinal, sua intenção era permitir que os jovens pesquisassem, na rede mundial de computadores, todas as informações pertinentes sobre o assunto proposto, a fim de que construam o próprio “banco de argumentos”, a partir do discurso de autoridade, dados estatísticos ou referências a fatos notórios.

Assim, de posse de seus smpartphones, cada aluno terá liberdade para “garimpar” todos os dados sobre os casos de dengue não só em nosso município, mas em todo o território nacional. Na referida pesquisa, será possível encontrar tudo que o estudante achar necessário para sustentar sua visão sobre a problemática proposta: dados numéricos e formas de se evitar a proliferação de tal moléstia. Porém, para que haja êxito em tal empreitada, será necessário que a escola conte, sempre, com uma excelente condição de acesso à rede, do contrário, isso poderá gerar frustrações no grupo.

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Com tal prática, o aluno se sente o agente ativo do processo de construção do texto, pois essa ação pedagógica tira os educandos da condição de meros receptores de conteúdo, para torná-los investigadores do conhecimento. Inclusive, os jovens podem procurar uma lista de sinônimos para evitar repetições de palavras, algo que a maioria dos vestibulares/Enem abomina nas dissertações, porque evidencia que o candidato não dispõe de um vocabulário consistente para se expressar na modalidade escrita, dentro da norma padrão da língua portuguesa.

Essa prática também funciona de forma eficiente nas aulas de literatura, pois o professor pode solicitar que os alunos encontrem críticas de obras que serão requisitadas nas avaliações. Outra ação positiva que também desperta a atenção dos estudantes consiste em apresentar videoaulas sobre determinada escola literária. Nesse campo, há um farto material de boa qualidade disponibilizado pelas universidades. As aulas sobre Vanguardas Europeias ganham um sentido maior quando, com o uso de data show e telão, são apresentadas as diferentes técnicas empregadas pelos artistas. Com isso, o aluno percebe a sutil diferença entre Impressionismo e Expressionismo. Assunto da próxima quinzena: Drummond revisitado.

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João Alvarenga é professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura, produz e apresenta, com Alessandra Santos, o programa Nossa língua sem segredos, que vai ao ar pela Cruzeiro FM (92,3 MHz), às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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