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O caco e o fônico diante do mar

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e escritor
O caco e o fônico diante do mar
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Leandro Karnal

Todas as línguas possuem sua melodia específica. As germânicas têm palavras que soam como canhões em um espocar denso e quase afrontoso. As latinas funcionam como metralhadoras com balas de vogais a cada gatilho consonantal. A consoante é um obstáculo para quem nasceu falando as línguas derivadas de Roma. Gostamos de colocar o som livre e sem impedimentos a cada muralha. O erro é conhecido por uma das mais medonhas palavras da língua portuguesa: suarabácti. Meter vogais como quem recheia pastéis, nosso vício das margens do rio Tibre até o Tietê. Exemplos de suarabácti? “Adevogado”, “pineu”, “o incrível Hulki”; “piseudo” e, passando pela avenida Paulista, o “Méqui 1000”, consagrando nossa indefectível inclinação pelo grupo A, E, I, O, U. A origem da palavra é sânscrita. O fenômeno é mais amplo, a tal da epêntese que eu já citei em crônica. Ocorre dentro das nossas raízes: a blatta latina vira a nossa barata, com vogal e nojo indissociáveis.

Palavras são sempre ricas; nem todas belas. A mais horrorosa da língua de Camões é fronha. Franzimos o cenho ao pronunciar. A careta é inevitável. Pronunciar fronha é feio; mordê-la é inconfessável.

Já houve nacionalismo e sugeriu-se banir o termo de avós britânicos: futebol. Nunca conseguimos usar o ludopédio mais honroso com nossa tradição clássica. É palavra natimorta. Poderia ser condutor, piloto em alguns sentidos, auriga como metáfora poética e até o terrível termo automedonte. Bem, a pior proposta para substituir o elegante chauffeur nunca “pegou”: cinesíforo!

Usando de um vocábulo pouco comum em textos sóbrios de jornal respeitável, cito outra palavra duplamente bela: pelo som e pela imagem. Na verdade, pudico que sou, deixo que autoridade maior a enuncie. Assim, se o senhor e a senhora supuserem que o vocábulo enxovalha sua leitura, queixe-se com Carlos Drummond de Andrade:

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“A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se
(…) A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar. Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, rebunda.”

Viram? Uma linda palavra. Mais curioso. Ao pesquisar a etimologia do termo, encontra-se a língua que a deu a nós, o belíssimo Quimbundo. É forte e bela. Você pode usar para sua esposa ou seu marido, em louvor ao termo descrito ou em homenagem ao que a área foi um dia. As nádegas são de uma frieza indevassável, quase termo médico. Glúteos faz a língua sofrer para soltar o som. O galicismo metafórico “derrière” parece coisa de casa de tolerância da Belle Époque. Trata-se da palavra eufônica por excelência. Sua menção pode ser alvo de condenação moral, mas traz a todo homem e toda mulher as mais sinuosas recordações. Os gregos chamavam a imagem de Vênus (quando bela por tal aspecto) de calipígia. Sim, um termo clássico e técnico que mostra a habilidade do cinzel do escultor. Não tem a alegria que Drummond identificou no poema. Vemos a deusa exibindo carnes no Museu Arqueológico de Nápoles. Também podemos identificar, no mesmo museu, atributo similar na estátua do Hércules Farnésio.

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Mas… calipígio é cacofônico, parece aula de grego ou latim. O legal está no poeta de Itabira: “A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente”. É um termo forte e belíssimo, evocador, cheio de luz e de inspiração.

Falando de frente ou de costas, sussurrando junto à fronha ou proferindo lives, as palavras devem ser respeitadas na pronúncia clara e com entonações. As consoantes explosivas como p e b devem soar bem. O f (e seu som fricativo) pode diminuir a temperatura da fala. O uso original do ão, algo tão específico da nossa língua, reaquece o ritmo e distingue se você tem como língua materna o Português. Amo o som da minha língua e a imagino desejável, sedutora, calipígia. Recito versos em voz alta e meço a sonoridade. Uma vez (isso poderá ser usado em uma audiência para minha interdição judicial no futuro) recitei Camões em praia deserta utilizando a técnica do orador Demóstenes: colocando obstáculos na boca e retirando, um a um, para aumentar a clareza. Não quis arriscar seixos, utilizei pastilhas de garganta que levava. Falar ao mar, ouvir-se, enunciar, marcar o ritmo. Dou detalhes para que não reste ao probo juiz nenhuma alternativa ao manicômio judiciário.

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Os cacos da minha língua são parte da arquitetura da minha alma. Camões disse que morreria em e com Portugal. Vendo tanta gente falando com pouco cuidado nas redes sociais, sinto o mesmo comigo e com a Língua Portuguesa. Morreremos os dois, felizes, recitando Drummond na praia deserta do amor retórico. A “flor do olvido” (outro termo do poeta) é sutil. É preciso ter esperança, uma linda palavra.

Lendro Karnal é historiador e escritor.

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