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O Bonde continua fazendo histórias

30 de Março de 2021

O Bonde continua fazendo histórias Crédito da foto: fotomontagem / VT

Vanderlei Testa

Já andei de bonde. Uma experiência que fica na memória para sempre. Há um romantismo nas imagens de bondes do passado em Sorocaba. Ganhei da leitora Maria Peres (foto) um livro editado em 1955 com o título “Os bondes elétricos de Sorocaba”. Junto com o exemplar veio um Caderno de Domingo do jornal Cruzeiro do Sul de 27 de dezembro de 2015. É uma edição comemorativa dos 100 anos da chegada dos bondes elétricos na cidade. O livro foi escrito por Antônio Francisco Gaspar. Foi uma homenagem ao quadragésimo aniversário de sua inauguração, período de 1915 a 1955. O autor já tinha publicado obras raras sobre o “Trovador do Sul”, “Reminiscências de um ferroviário”, “O mistério de água vermelha” com as histórias da origem da Capela de Nosso Senhor do Bom Jesus, erigida por João de Camargo, o saudoso taumaturgo da Água Vermelha.

Aluísio de Almeida, o historiador Monsenhor Castanho, fez a apresentação dos escritos monográficos das quatro décadas de crônicas do Gaspar sobre os bondes de Sorocaba. Tudo começou com a vinda à cidade do funcionário, um eletricista italiano Giotto Pannunzio da “The São Paulo Tramway, Light and Power Company”. Era um técnico do tráfego de bondes elétricos que foi transferido para trabalhar em Sorocaba. Sua missão, administrar o serviço da instalação dos primeiros bondes. Os desafios de planejar o itinerário e instalar os trilhos e fiação elétrica aérea pareciam difíceis de serem executados numa cidade cheia de morros. A ponte do rio Sorocaba precisava ser um caminho entre os bairros do Bom Jesus (Além Ponte), Cerrado e o Centro comercial, com parada na praça Arthur Fajardo (praça do Canhão).

Em 30 de dezembro de 1915 no, entanto, teve início o girar da manivela do operador do primeiro bonde, chamados de motorneiros. Imaginem os leitores, a novidade o interesse da população nesse transporte revolucionário do começo do século. Houve um gesto simbólico da empresa concessionária aos usuários da Irmandade da Santa Casa de Sorocaba. Concretizado com a doação de toda a arrecadação dos bilhetes vendidos desse dia 30 para as obras do hospital. A linha inaugural saiu dos altos da rua dos Morros, hoje Cel. Nogueira Padilha e tinha o ponto final na rua da Penha, atual praça nove de Julho. O trajeto traçado pelo Gino Pannunzio (avô do ex-prefeito Antonio Carlos Pannunzio) e equipe contemplou as ruas Newton Prado, Santa Maria , Manoel Lopes, Sá Fleury, Assis Machado e rua dos Morros.

Fato curioso relatado no livro durante esse tempo dos bondes elétricos. O transporte de carros de boi pelas ruas de Sorocaba foi proibido em locais que existiam os trilhos. Na edição do jornal Cruzeiro do Sul de 13 de fevereiro de 1913 foi publicada a concessão e regras para os bondes elétricos. Com a devida aprovação das autoridades municipais, os trilhos chegavam a Sorocaba pela Estrada de Ferro Sorocabana. No dia 22 de janeiro de 1915 com ato solene e brindes com cerveja, os empregados assentaram os primeiros trilhos na rua Dr. Álvaro Soares com a rua Souza Pereira.

Pulando anos no tempo, chegamos hoje ao Aparício Tarcitani (foto). Ele e seus pais foram do convívio de minha família no bairro Além Ponte. Filho de ferroviário amigo de meu pai que também se aposentou na Sorocabana. Aparício é professor aposentado. Seu interesse pelas histórias dos bondes elétricos em Sorocaba chegou ao ponto de ser um artesão de miniaturas em madeira desses veículos. Há nas mãos do Aparício uma riqueza de aptidão. Os seus bondes são feitos com detalhes internos que impressionam. O bonde número 1 de Sorocaba é incrível. Sua lembrança de morar na Vila Santa Maria e estudar na rua da Penha fez com que usasse os bondes na juventude. Tudo ficou gravado na memória. Hoje com 81 anos de idade faz parte dos historiadores sorocabanos.

Um dos destaques da edição comemorativa do centenário dos bondes em Sorocaba publicada no jornal Cruzeiro do Sul foi o saudoso Hidílio Ferreira Duarte, conhecido como Vassourinha. Ele como motorneiro conduziu o último bonde a circular pelas ruas da cidade. O professor Tarcitani se lembra dele. Hidílio faleceu com 86 anos em 2015. Sobre o último bonde, recorda que tinha o número 52. A garagem dos bondes ficava na rua Pedro Jacob. Eram 23h50. Com a tristeza dos motorneiros, cobradores e mecânicos, deu entrada na garagem sob as lágrimas de todos. Jairo Sanches Molina lembra que ele e o irmão Juraci Sanches pegaram o último bonde para se despedir. Jairo tinha 13 anos nesse dia em 1959. Eles foram os últimos passageiros A partir daí a promessa de ônibus movidos a óleo diesel anunciada pelo prefeito da época José Lozano, mudaria o capítulo dos transportes urbanos da terra que começou com os muares e tropeiros. Foi no dia 28 de fevereiro de 1959.

O valor de 300 réis de cada passagem de bonde era comentado pelos meus pais quando o assunto bonde aparecia nas conversas de despesas. Lembro-me dos trilhos na rua Santa Maria e do som dos bondes. Quando havia condições financeiras para usá-los, meus pais e irmão seguiam para suas compras nas ruas do centro. Hoje vejo como poesia esse cenário. Olho as fotos dos bondes sempre circulando nas redes sociais. As novas gerações nem imaginam como era estar em um bonde elétrico. No Parque Municipal Quinzinho de Barros, tem um bonde como exemplar raro. Apesar de nunca ter rodado em Sorocaba, esse bonde veio de Nova Iorque. Os bondes de Sorocaba infelizmente viraram sucata, contou Aparício. Inclusive o último bonde vendido para a Indústria Votorantim, que o transformou em um carro de solda em suas oficinas. E à assinante e leitora do Cruzeiro do Sul, Maria Cayuela Peres, 81 anos, moradora da rua Campos Salles que motivou esse artigo por ser uma saudosa usuária dos bondes elétricos em Sorocaba, a nossa gratidão pelo presente do livro.

Vanderlei Testa jornalista e publicitário, escreve às terças-feiras no Jornal Cruzeiro do Sul e aos sábados no www.facebook.com/artigosdovanderleitesa e www.blogvanderleitesta.com