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Nosso ambiente, nosso lixo e nossa pandemia

Artigo escrito por Michel Xocaira Paes e Sandro Donnini Mancini

Michel Xocaira Paes e Sandro Donnini Mancini

Parece que a sociedade não tem escutado alguns avisos, como as catástrofes de Brumadinho e Mariana, inesperadas enchentes e até o dia que virou noite, com o céu encoberto por fumaças de queimadas. Estamos devastando, em pouco tempo, as riquezas naturais do nosso mundo e país. Há quem encare essa pandemia como um pedido de pausa do planeta e da natureza. Afinal, as mudanças climáticas, os processos acelerados de desmatamento, perdas da biodiversidade e poluição do ar, solos e rios, além de ameaçar diretamente nossa saúde, também podem contribuir com mutações de vírus e bactérias.

Nesse período de quarentena é fato que algumas fontes de poluição também deram um tempo. Mas não há motivo para comemorar. Alguns desmatadores não estão em home-office. E a recessão econômica (outro fato) trouxe a diminuição das atividades de comércio, indústria e serviços e, certamente, a redução da poluição gerada por essas atividades, p.ex. através dos resíduos sólidos. O mesmo não se pode afirmar dos resíduos domiciliares, pois ficando mais em casa, também podemos gerar mais resíduos nas residências.

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Mas afinal, porque tantas políticas importantes, que impactam diretamente na qualidade de vida de todos os cidadãos, como meio ambiente, saneamento, resíduos, habitação e mobilidade urbana, pouco avançaram nos últimos anos? Porque o Estado ou a iniciativa privada tem dado pouca atenção a questões tão estruturantes da sociedade?

Hoje vemos que a ausência de transporte coletivo de qualidade, de saneamento (tratamento de água, esgoto, resíduos sólidos e drenagem de águas pluviais) ou de moradia digna tem impactado diretamente na forma de contágio do Covid 19. E quem vai pagar esses custos de tratamento dos doentes ou de tantas vidas perdidas? É sabido que algumas externalidades ambientais (como da poluição atmosférica ou de rios) causam impactos econômicos diretos ao poder público, por exemplo com a necessidade de tratamento de doenças respiratórias advindas da poluição do ar ou de outras enfermidades provenientes da poluição das águas. Porém, a perda de vidas (de pais, filhos, irmãos, sobrinhos, tios, amigos e avós) não tem valor mensurável. Se tivéssemos uma sociedade mais preparada para enfrentar essas crises, provida de serviços públicos de qualidade, certamente o impacto disso tudo seria menor.

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Quando falamos da gestão de resíduos, podemos compreender facilmente que a reutilização de produtos, a reciclagem e o tratamento da matéria orgânica (através, por exemplo, da compostagem) podem ajudar a reduzir a carga sobre a extração de recursos naturais para a produção de novos insumos e produtos. Assim como seria benéfica a disposição final de rejeitos em aterros sanitários (a maneira adequada de fazê-lo) e não em lixões (fontes de contaminação do solo, ar e corpos d’água), locais para onde foram 39% dos resíduos brasileiros em 2008 e 24% em 2018.

E o que seria de nós se os serviços da coleta do lixo parassem? Será que haveriam mais fontes de contaminações e doenças? A resposta, sem dúvida, é sim. Então vale a pena agradecer a todos esses trabalhadores e também lembrar que outras atividades tiveram que ser interrompidas. A coleta seletiva e a triagem dos recicláveis, por exemplo, teve que dar uma pausa em muitas cidades do país, como Sorocaba, devido a possibilidade de contaminação dos trabalhadores. Já cidades que contam com sistemas de triagem mecanizados (em substituição ao sistema manual) puderam dar continuidade à coleta seletiva. Ou seja: mais um motivo para se investir e modernizar as políticas urbanas.

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Enfim, enquanto nos mantivermos passivos a tantas demandas (globais e locais) por melhorias e avanços reais em determinados serviços públicos, talvez só iremos dar conta dos problemas quando não houver mais solução. Ainda há tempo de corrigir algumas inércias. Ainda é tempo de despertar.

Michel Xocaira Paes é Pesquisador do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas (michel.paes@fgv.br) e Sandro Donnini Mancini é professor da Unesp-Sorocaba (sandro.d.mancini@unesp.br).

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