Artigos

Neologismos coloquiais familiais

Dormir cedo e cedo acordar era acordo tácito. Com as galinhas, como se dizia

Grüss Gott Trit Ein Bring Glück Herein
Deus abençoe. Entre e traga sorte para este lar.
(Inscrição pintada na varanda do Capão Grande)

Encerro hoje as crônicas sobre a fase rural de minha vida. Projetei uma trilogia. Com esta crônica, republicada, virou quadra.

Postado em rampa ascendente, cruzo com cidadão deixando o supermercado pela descendente. Não me recordo tê-lo visto antes. Um interrogativo/exclamativo “Doutor Edgard!?” chamou minha atenção. Naqueles segundos, deu-me a sugestão “Fale mais do sítio!”… e sumiu no estacionamento, enquanto eu desaparecia entre fregueses, carrinhos e gôndolas. A rapidez da comunicação lembrou-me “Sinal fechado” de Paulinho da Viola. Rápida troca de palavras enquanto o semáforo não abre. “Olá, como vai / Eu vou indo e você, tudo bem?/ Tudo bem eu vou indo, correndo/ (…) Me perdoe a pressa / é a alma dos nossos negócios…”. Vivemos a época da comunicação instantânea. Gente monossilábica fala e anda com o celular grudado no ouvido. Demonstram pressa. Não que o açodamento seja alma dos negócios. Talvez porque os negócios tenham penetrado suas almas. Foi-se o tempo das tertúlias familiares em volta da mesa de refeições.

Leia mais  Filme ‘Todos já sabem’ mostra as vísceras da família (1)

Falar sobre o Capão Grande encheria um livro. Era bom estar lá. Tinha de tudo. O que havia de maior eram os imensos corações acolhedores de meus tios Carlos Oscar e Martha. A sobrinhada adorava ir para lá nas férias e feriados. Era mais que um sítio, quase uma fazenda. Não tinha piscina nem churrasqueira nem lago com pedalinho. Tinha cavalos, mas destinados apenas às lides com o gado e a roça.

Dormir cedo e cedo acordar era acordo tácito. Com as galinhas, como se dizia. Ninguém ficava retardando a hora de se recolher ou modorrando na cama após o cantar dos galos. A cada um, segundo a capacidade, cabia um tipo de trabalho. Às crianças, levar o almoço na roça (quando o plantio ou colheita não podia ser interrompida), procurar ninhos de galinhas alongadas, coletar ovos, escolher feijão, catar gravetos para o fogão a lenha e outras tarefas simples.

Leia mais  As mil e uma utilidades do botox

Adultos falavam alemão. Crianças, apenas algumas palavras. Saudações (guten morgen, guten nacht, auf wiedersehen bom dia, boa noite e adeus, respectivamente), interjeições (ach! was? du schwein! – ó!, o quê? você porco!) e utilidades em linguagem familiar coloquial, que não fazem parte da língua alemã. Pêspote e tandamaia, por exemplos. Pesspot, obrigatório em cada quarto, designava urinol. Tandamaia — gíria familiar para designar a latrina externa à casa — era aportuguesamento de Tante Meia inventada na gíria familiar. Antes que pensem maldades… não havia nenhuma tia (tante) ou parenta com esse nome.

Naquela mistura de línguas germânica e portuguesa, havia uma palavra, temida pela criançada: era o “pincz” (ou seria “pinkz”?) reservada ao último a levantar da cama, pela manhã. O apelido acompanharia o retardatário até que nova manhã apontasse o próximo a carregar o divertido e indesejável epíteto. Ser o último a levantar era aguentar primos apontando o dedo e gritando du pincz! ou pincz vos!.

Menino dorminhoco, fui várias vezes “agraciado” com o título. Adulto, procurei saber grafia e tradução. Não encontrei o verbete nos dicionários. Amiga estudiosa e pesquisadora do Instituto Goethe, não conseguiu localizar o vocábulo na língua germânica.

Leia mais  Cem dias, sem calma

O cartunista Ziraldo inventou Flicts, uma cor inexistente. Definiu-a: “Não tinha a força do Vermelho / não tinha a imensidão do Amarelo / nem a paz que tem o Azul. / Era apenas o frágil e feio e aflito Flicts.” Genial, não acham?

Assim como o flicts do Ziraldo, o pincz do Capão Grande deve ter sido inventado. Não tinha a limitação do dorminhoco nem a carga ofensiva do vagabundo nem a conotação pejorativa do preguiçoso. Apenas expressão franca, fraterna, familiar na pedagogia do trabalho; identificação ocasional dalgum derrotado no conflito entre a vontade de permanecer na cama e a necessidade de iniciar novo dia de trabalho, folguedo ou sonho. Palavra inventada num clã cioso em cumprir o seis dias trabalharás (Êxodo 20:9 — Deuteronômio 5:13), repeteco da ordenança divina de se ganhar o pão com suor (Gênesis 3:19).

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve para o Cruzeiro do Sul — edgard.steffen@gmail.com

Comentários

CLASSICRUZEIRO