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Não ria do Rio

José Feliciano

O Rio de Janeiro não continua lindo, como queria o verso da música do compositor e cantor baiano Gilberto Gil, 1969, mas indo. Com a saída da capital do País para Brasília em 1960, o Rio de Janeiro deixou de ser o centro de decisões do poder recebido, quando da chegada da família real em 1808. O poder central foi parar em Brasília e os políticos cariocas na cadeia. Se um Cabral descobriu o Brasil, o outro, ex-governador do Rio, encobriu coisas no Brasil.

É de se perguntar o que aconteceu com o Rio de Janeiro? Será que atiraram a Pedra da Gávea na cruz? Serviram o Pão de Açúcar duro com formiga na Santa Ceia? Quando se fala em bondinho do Corcovado, todo mundo esconde as carteiras, celular e correntinhas, lembrando-se da gíria para ataques simultâneos de pivetes na praia. A Garota de Ipanema não sai mais sozinha na rua e o Garoto do Rio provoca arrepios em quem cruza com um deles. No Rio, dizem, até o Redentor passou a andar armado. As famosas peladas na praia (me refiro aos jogos de futebol, olha lá) só são vistas com turistas, depois de um arrastão dos marginais. A Linha Vermelha ganhou esse nome menos pela sinalização, mais pelo rastro de sangue. Morro, no Rio, pode ser verbo ou substantivo dependendo de onde vem os disparos. O carioca não vai mais à praia, aparece boiando.

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O que acontece com o Rio de Janeiro?

E agora as enchentes. Não são novidade. Em 2010 no Rio elas causaram mais mortes do que qualquer outro incidente em outra parte do mundo, a inundação esteve entre as quatro mais fatais daquele ano com 113 vítimas, diz a BBC Brasil.

Quem sempre desejou morar no Rio de Janeiro, para ter o mar na porta de casa, não tem mais do que reclamar, agora pode ter o mar dentro da sala. E ter o rio de janeiro, de fevereiro, março e abril principalmente. Qualquer rua do Rio virou… rio. É um rio submerso, debaixo d’água como pode-se ler na manchete do Cruzeiro do Sul. Para que o carioca vai gastar dinheiro indo ao cinema assistir Tubarão, quando pode ter o bicho dentro do quarto? No Rio de Janeiro ninguém manda mais os postais da cidade, coloca mensagem em garrafas e o mar leva até o destinatário, às vezes junto com o remetente. Todo carioca está tendo sua chance de se tornar um Leonardo Di Caprio na proa de seus condomínios Titanic, construídos pelas engenharias das milícias e ignorados pela prefeitura da cidade. A ciclovia Tim Maia, permite pedalar em alto-mar. Do alto, ao mar. Se o cantor estivesse vivo provavelmente soltaria o vozeirão com um dos seus sucessos: “Não vá embora!” E como o cantor, a ciclovia vive caindo pela ressaca. Pior ainda, muitas vezes não cumpre com o compromisso e some.

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Quem precisa subir a Serra da Mantiqueira se durante as chuvas ela pode vir até sua casa? Completinha com barrancos, árvores, pedras e toda natureza junto. Todo brasileiro sempre quis morar no Rio de Janeiro, porque lá o sujeito vê a vida passar numa boa: a vida, o carro, a geladeira e tudo mais que puder boiar. Quando alguém fala em mangueira na cidade não se pensa em samba, mas em vassoura, escovão e pá para raspar a lama. O carioca não pega mais praia, é a praia que pega ele.

É a maravilha da natureza invadindo as casas, invadindo e levando. E quem sempre quis conhecer a cidade e não tinha condições, pode esperar que dia desses o Rio de Janeiro apareça nas margens do rio Sorocaba, boiando.

Em nossa cidade as águas são outras, enquanto o prefeito inaugura guarita na praça central. Parede. E muro, já inaugurou porta.

As enchentes do dia mais chuvoso do ano chegam em viaturas na casa de secretários e políticos e levam tudo e todos.

— Juvenal! O que você tá fazendo aí escondido? Eu quero que você assuma uma Pasta na nossa cidade.
— Pasta não. Pasta é perigoso! Me tira dessa, prefeito!
— Vai por mim. Pasta é melhor que mala. Que tal Secretário?
— Não! Secretário, não! Secretário não dura. Me tira dessa, prefeito!
— É moleza Juvenal, com sua experiência… Você pode pegar, por exemplo, a Secretaria da Maçaneta, que abre as portas para eu passar. Ou ser o Secretario Dobradiça, basta concordar com a cabeça com tudo que eu falo e até Secretario Guincho, quando a coisa enguiçar, puxa-o-carro. Você pode começar sua vida pública numa Secretaria!
— O problema não é onde começa a vida pública, é onde ela pode acabar. Me livra dessa, prefeito, não teria outro cargo não? Um com menos risco.
— Já sei Secretaria do Rombo!
— Secretaria do Rombo!?
— É onde você vai ser mais útil, o que não falta em nossa cidade é rombo. Tem rombo em todos orçamentos, departamentos, projetos.
— Me tira dessa, prefeito! É perigoso.
— Que tal um cargo de confiança?
— Esse não dá “cana”?
— Aí está a vantagem o próprio nome já diz: o cargo vem com fiança!

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(… é melhor não falar em enchente em casa de encharcado.)

O Governo garante dessa vez vai tirar os menores das ruas e… por nas calçadas.

Toda a solidariedade e carinho aos cariocas nossos irmãos.

José Feliciano é redator de humor e mistérios — Médico sem pasta, só de prontuários, com 30 anos de praia ribeirinha.

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