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Na marra!

Neusa Gatto

Momento de confinamento! Pensa ela ao sair do banho. Olha pro espelho e diz: — Confesso. Esse bendito covid-19 tá me queimando a cuca… nunca pensei tanto… Plipt! O som do WhatsApp avisa nova mensagem. Um amigo quer falar o que anda a pensar.

— E aí, tudo bem? Chamo você daqui a pouco… tou fechando um texto pro jornal, diz ela meio apressada.

Quantas conversas, filosofias, prognósticos, dúvidas, dúvidas, dúvidas… E, claro o humor trágico às vezes…

Em frente ao computador, toma um gole de cerveja que trouxe da cozinha. Geladinha. Sem remorsos, afinal, tá nos trinques com a alimentação e, de certa forma, com o contato humano mais próximo.

Começa o artigo pro jornal. E, toca a esmiuçar notícias sobre pesquisas, medicamentos… países onde o virus diminui, medidas econômicas e sociais de vários governos… infinidades de informações que se multiplicam. Na sala, a TV numa rede de jornalismo, continua a falar dele, do Covid-19.

Toca o celular. Até o telefone antigão tá valendo. Não é que outro dia recebeu uma ligação no dito cujo? Ressucitou.

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— Oi, tudo bem? Sim, tou no fim, diz ela ao chefe de redação. Mais uma hora e o artigo tem que estar lá.

Desliga. Antes de finalizar o texto, dá uma olhada nas postagens, curtidas e palpites do Facebook e outras mídias da internet. Faz um giro pelas páginas dos jornais e suspira. Pensamentos, dúvidas, certezas, conjecturas, filosofias, como entender o que se passa? Dá pra fechar um ponto de vista?

Talvez. Das consequências, já sabe. Todo mundo sabe. Morte pra muitos. As questões de Saúde, Sociais. Econômicas sendo geridas, pelo que parece, dentro de normas técnicas.

E o comportamental? E esse novo cenário que a obriga e a bilhões de pessoas a se enclausurarem pelo bem de todos? Adeus ao ir e vir. E então, o baque do “eu sozinho”.

Aquele momento que, algumas ou raras vezes, nos damos pra pensar mesmo. Profundo. Sério no que acreditamos. Sentimos. Pensamos…

“O inferno são os outros”, diria Sartre em uma de suas peças, pensa ela ao escrever, pode agora se transformar num inferno próprio?

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Ou não? O tudo ali, agora. O muito tudo ao mesmo tempo não ocupa todos os neurônios. As análises mais críticas dão espaço para imersões mais emocionais? Pra ela sim, raciocina, enquanto tenta afastar o gato que insiste em subir na mesa.

Pequenos grãos de areia numa infinidade de momentos que se sucedem que, nem ela, nem ninguém nesse momento pode definir como futuro.

Um vírus, finaliza, nos colocou dentro de casa pra saber quem somos. Aqueles momentos das lutas entre o bem e o mal que nos ajuda a achar um caminho. Apocalíptico, talvez. Um crash da bolsa de 29 com um tsunami. Alguns, a onda vai levar. Outros, vai quebrar.

O momento é o do ser humano. Não do vírus, arrisca ela nas linhas finais. O maldito arauto, ironicamente, nos fechou para que possamos nos comunicar melhor. Sentir melhor. Rir. Chorar. Todos com todos, iguais a todos. Cuidando da gente e cuidando do outro. O resto vem.

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Neusa Gatto é jornalista e produtora de vídeo.

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