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Mostra o mau, esconde o bom

Carlos Brickmann

Numa escorregada memorável, o então chanceler Rubens Ricupero disse na TV, certo de que estava fora do ar, que o Governo mostrava o que era bom e escondia o que era ruim. O presidente Bolsonaro faz justinho o oposto: quando aparece notícia boa, arruma uma briga boba que a esconde. Vamos aqui inverter o processo: dar primeiro a boa notícia e aí contar como Bolsonaro a abafou. O motivo não conto, nem sei, e acho que nem ele sabe.

A boa notícia: o índice de desemprego no País caiu de 11,8% para 11,6%. A queda é minúscula, o índice ainda é monstruoso, o desemprego continua atingindo 12,4 milhões de pessoas. Mas a melhora, embora pequena, mostra queda no desemprego, e pode sinalizar uma tendência (ainda mais com o aumento da produção de papelão, que indica maior consumo de embalagens).

Bolsonaro preferiu povoar o noticiário com uma atitude autoritária e de legalidade discutível: na licitação de assinatura de jornais para o Governo, a Folha de S.Paulo foi excluída. Ninguém é obrigado a ler a Folha, nem o presidente, mas o Governo não pode ser privado das informações de um dos principais jornais do País. Por quê? Primeiro, Bolsonaro disse que não podia inteirar-se de tudo o que fazia cada um de seus 22 ministérios. Então decidiu assumir, e disse: “Eu quero pedir à Folha que se retrate de todos os males e calúnias que fez contra a minha pessoa”. Sem problemas: para isso existe a Justiça. Se processar a Folha e ganhar, poderá obrigá-la a retratar-se de tudo.

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Briga longa

Bolsonaro tem criticado pesadamente duas empresas de comunicação, às quais atribui má vontade e má fé ao dar notícias sobre ele (desde a campanha) e seu Governo: a Folha e o Grupo Globo. Mas, na licitação sobre assinaturas, só a Folha foi atingida: O Globo está entre os jornais a ser assinados. O problema é que Bolsonaro é presidente, mas não é o Governo. Por isso pode ter de enfrentar a reação da Folha nos tribunais — não pelo valor que deixa de receber, pequeno diante do seu porte, mas por uma questão de princípio.

Pura coincidência

A Polícia Federal indiciou o presidente do PSL, Luciano Bivar, por suspeita de envolvimento em esquema de candidatas-laranja, com o objetivo de desviar verba pública. O esquema, segundo as denúncias, funciona assim: o partido destina boa parte da verba que recebe do Tesouro para fazer campanha a candidatos que só fingem disputar, e devolvem o dinheiro quase todo para o patrocinador da maracutaia. Bivar foi quem entregou o partido a Bolsonaro para a campanha presidencial; mas depois reassumiu e manteve o controle sobre as magníficas verbas que todos os partidos recebem. Talvez seja este um dos motivos que levaram Bolsonaro a anunciar sua saída do PSL e a fundação de mais uma legenda, a Aliança. Bivar e Bolsonaro brigaram feio, Bivar está expulsando os bolsonaristas do PSL — entre eles Eduardo, o filho 03. Mas é claro que essa briga nada tem a ver com seu indiciamento.

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Quem te viu

Sabe a ex-presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, Maria do Socorro, apanhada pela Operação Faroeste e detida por ordem do Superior Tribunal de Justiça? Em 2015, pouco antes de assumir a presidência do TJ, em Salvador, a desembargadora Maria do Socorro avaliou a Lava Jato: “Acho que o processo está sendo eficiente (…) a justiça está sendo feita e os culpados deverão ser punidos (…) O povo está carente de Justiça e temos que mostrar que estamos aqui para servir”.

Carlos Brickmann é jornalista (carlos@brickmann.com.br)

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