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Horóscopo

Neusa Gatto

“Ninguém vai perceber suas limitações e temores, essas são experiências íntimas que, nesta parte do caminho, não deveriam ser protagonistas da história. Procure aceitar o impulso da alegria e se atrever a viver”. E então, ele viu seu horóscopo na internet. Fazia isso quase todas as noites. Isolado em seu mundo cotidiano, ele acreditava naquele astrólogo. Sempre parecia falar com ele. Parecia estar ali, do lado, como confidente, sabendo de tudo. Das emoções. Alegrias. Tristezas. Duras decisões. Falava como se fosse o amigo da breja.

Ela, em casa, de frente pro computador, pensa em ir dormir. No dia seguinte, trampo. Mas, ainda vai dar uma olhada no horóscopo. Acha lá o astrólogo que curte e desce a tela até seu signo. E, resumido, diz lá: “coordene suas visões e opiniões num mesmo caminho. Essa é a ciência que tem que aprender a desempenhar, e rápido”. E, avisava: “o caminho era de complexos relacionamentos sociais”. E, não é que é verdade? Matou a charada, pensa ela sorrindo. Simples assim. Foco. O que vê e o que pensa, focados. Ordenar visão com opinião seria redundância? Isso. Verdade, pensava ela ao refletir sobre sua situação atual.

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Tão distante dele. Tão longe do seu coração. Aquela distância medida, que sabe existir.

Ele pega a garrafa de 2 litros de Coca-Cola e vira na boca. Satisfeito leva o litro com ele. Coça a barriga. Estou muito gordo, pensa. Dá de ombros e continua a limpar sua Glock prateada. Linda arma, sentia ele ao manusear a pistola. Senta na cama. Cata o jornal ao lado. Folheia. O horóscopo chama a atenção: “há assuntos que precisam de diálogos, longos, porque não são fáceis”. Olha pra cima. Toma mais refrigerante. Arrota e ri. Até que aquela previsão não estava de todo errada, matuta ele. Tinha mesmo um problema pelo caminho. Velho problema que o acompanhava há anos. Até se acostumara com ele. Só que, agora, vivia uma vida diferente. Precisava resolver.

O celular toca. Ela para de escrever e atende. Oi, há quanto tempo… e aí, tudo bem? Senta no chão com o celular na mão. Jeito de conversa confortável… longa, talvez? Ouve. Ri. Pergunta. Repete a pergunta que ele parece não ter entendido… Ah, sim… natural. O que seria “natural”? Ela ri. Tá bom. O “natural” dele pode ser diferente do “natural” dela. Vai saber… conversa pra outra hora… E, então o escuta a dizer — “me deu um impulso louco de viver e, então lembrei de você! Bom ouvir você dizer isso, fala ela timidamente. Então, espanta da cabeça o pensamento com o final da frase dele: … e me lembrei de você. O lembrar era o verbo… que sempre a fazia feliz quando ouvia dele.

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Um estrondo corta a conversa. Do lado de fora, na rua, uma arma brilha na mão de um homem. Forte. Um tanto acima do peso. Ele fala, gesticula. Fala de novo, para. Ela interrompe a conversa e observa. O homem chacoalha um jornal. Pisa nele. Silêncio… e, então…

Neusa Gatto é jornalista e produtora de vídeos.

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