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Filmes da Netflix: ‘Negação’ (parte 2 de 2)

Este artigo completa o iniciado na semana passada
Filmes da Netflix: ‘Negação’ (parte 2 de 2)
Papa Francisco visitou Auschwitz. Na porta, o descaramento da frase “O trabalho liberta”. Crédito da foto: Reprodução

Nildo Benedetti – nildo.maximo@hotmail.com 

No filme, a personagem que interpreta Lipstadt afirma que a negação do Holocausto apoia-se sobre quatro afirmações básicas:

“Que nunca houve qualquer tentativa sistemática ou organizada pelos nazistas para matar todos os judeus da Europa”, dando a entender que, desde a ascensão do nazismo ao poder, em 1933, estava previsto seu extermínio em massa. Mas Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém”, divide em três fases o tratamento dado aos judeus pelo nazismo: “expulsão”, que vai até 1939, quando o desejo de judeus alemães de emigrarem para a Palestina, apoiado pela Gestapo e SS, era barrado pela Grã-Bretanha, que na época governava a região; “concentração”, de 1939 a 1941, quando foi pensada a solução de criar um estado judaico em Madagáscar; “assassinato”, a parir de 1941, consolidado na Conferência de Wanssee de janeiro de 1942, em que foi decidida a “Solução Final” da Questão Judaica.

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“Que não houve câmaras de gás ou instalações de extermínio especialmente construídas.” De fato, não existe uma única foto em que é mostrado um judeu em uma câmara de gás. Mas, com a aproximação do Exército Vermelho da União Soviética, as câmaras e documentos comprometedores de Auschwitz teriam sido destruídos pelos alemães em fuga. Mas, penso que, muito pior do que a morte em câmara de gás seja a morte pela fome, porque é lenta, cruel e pavorosa; pela fome morreram mais de uma dezena de milhões de pessoas do Leste Europeu. Em 1941, ano da invasão da União Soviética pelo Exército alemão, Goering declarou que “este ano morrerão na Rússia entre vinte e trinta milhões de pessoas” e completou: “Os prisioneiros russos já começaram a comer uns aos outros”.

“Que os números são muito menores do que cinco ou seis milhões”, ou seja, esses números seriam indiscutíveis. Contudo, eles têm sido questionados por historiadores judeus. Penso que, em termos humanitários, pouca diferença faz se foram três, cinco ou seis. Tudo é barbárie.

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“Que o Holocausto é um mito inventado por judeus para obter uma compensação financeira e para promover os destinos do Estado de Israel”. Essa tese tem sido endossada por vários historiadores judeus.

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Falemos do filme.

A capacidade de síntese é a virtude dos grandes diretores e em seus filmes nada é supérfluo, tudo que é mostrado tem objetivo determinado. Vão fundo nos assuntos de que tratam e se concentram neles. Grande parte dos diretores, contudo, age de modo diverso e a compreensão das teses de seus filmes, quando existem, ficam prejudicadas pela dispersão de fatos estranhos a elas.

A maior parcela de “Negação” é ocupada por cenas inúteis — Lipstadt fazendo Cooper, dando comida ao cachorro, etc. — e piadinhas que não cabem em um filme que trata de assunto sério. Por outro lado, a razão e o andamento do processo judicial, que deveriam ocupar todo o filme, são apresentados de modo superficial, incompleto e confuso, cheio de clichês.

Na próxima semana escreverei sobre “Match point”, também disponível na Netflix. É exemplo de filme dirigido por um grande diretor, Woody Allen.

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