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Esparrelas da língua, um dilema (parte 2)

Distinguir adjunto adnominal de complemento nominal talvez seja um dos principais “nós” da Língua Portuguesa

Encerrei o artigo anterior com a promessa de abordar a sutil distinção que existe entre o adjunto adnominal e o complemento nominal. Exageros à parte, para muitos, talvez essa questão seja um dos principais “nós” do capítulo da sintaxe que trata da classificação dos termos das orações. Isso procede, pois ambos os termos apresentam algumas singularidades que serão vistas nesta abordagem.

Inicialmente, o gramaticista Evanildo Bechara, autor do indispensável “Moderna Gramática Portuguesa”, observa que o complemento nominal, além de ser um termo integrante da oração (não pode ser removido do contexto), estabelece uma relação coesa de sentido claro ao termo ao qual se relaciona. Outro ponto crucial: o complemento nominal sempre aparece seguido de preposição.

Observe os exemplos: “O povo teme a volta da inflação”. O termo destacado completa uma palavra abstrata. Ou ainda: “More perto do Iguatemi”. Aqui, completa o sentido do advérbio de lugar “perto” e, finalmente, em: “Munir era o orgulho da família”, o adjetivo “orgulho” solicita um complemento, no caso em questão, “da família” cumpre essa função sintática. Por outro lado, o adjunto adnominal é um termo acessório e pode ser removido dos arranjos sem que haja prejuízo de entendimento. Outro detalhe importante: em 99% dos casos, os adjuntos adnominais se relacionam a termos concretos e nem sempre são preposicionados.

Notem: “Quero ganhar um belo livro de poesias”. O termo “belo”, gramaticalmente falando, é um adjetivo e, na sintaxe, exerce a função de adjunto adnominal. Não está seguido de preposição e se relaciona ao substantivo concreto ‘livro’. Ou ainda: “Pedro comprou uma casa de praia”. A expressão destacada é um adjunto adnominal de especificação. Outro exemplo: “Papai cria cães de raça”, as expressões “de praia” e “de raça”, embora venham seguidas de preposição, nunca podem ser confundido com o complemento nominal, pois não completam o sentido do vocábulo “casa” “cães”, mas os especificam.

Até aqui, parece que está tudo claro; porém, o nó começa a ficar apertado, quando notamos algumas singularidades, tais como: o complemento nominal e o adjunto adnominal aparecem preposicionados, em alguns arranjos sintáticos, como os extraídos do livro do professor Nilson Teixeira: “efetuaram a prisão do ladrão” ou “a fuga do ladrão ocorreu à noite”. Nesse caso, salienta o respectivo autor de “Gramática para concursos e vestibulares”, a dúvida se impõe, porque o termo “do ladrão”, além de estar preposicionado, refere-se aos substantivos abstratos “prisão” e “fuga”.

Para dirimir tal angústia de quem deseja prestar algum concurso público, pois esse imbróglio é típico de questões da Vunesp, recorro ao próprio Teixeira que explicita: no primeiro exemplo “…a prisão do ladrão”, o termo “do ladrão”, na verdade, é alvo da ação indicada pelo substantivo abstrato “prisão”; portanto, trata-se de um caso clássico de complemento nominal. No segundo caso, “a fuga do ladrão…”, o referido termo “do ladrão”, além de apenas delimitar a palavra “fuga”, é o agente da ação, ou seja, do ato de fugir. Logo, temos apenas e tão somente um adjunto adnominal.

Antes de finalizar esta abordagem, deixo uma dica eficaz dos gramáticos, que recomendam o seguinte raciocínio: nos casos em que tivermos uma palavra abstrata e o termo preposicionado for alvo da ação, teremos, notoriamente, um complemento nominal. Quando tal situação se repetir, e o termo em questão for agente da ação, seguramente, estaremos lidando com um adjunto adnominal. No próximo encontro, a distinção entre o adjunto adverbial e o adjunto adnominal será o nó a ser desatado. Até lá.

João Alvarenga é um professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura e apresenta, com Alessandra Santos, o programa Nossa Língua sem Segredos, que vai ao ar pela Cruzeiro FM (92,3 MHz), sempre às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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