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Enem, a missão (parte 1)

Série de artigos traz dicas para a redação do exame
Foto: Pixabay

Este é uma série de três artigos sobre a prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio, o popular Enem. A ideia é oferecer informações pertinentes sobre alguns aspectos relevantes da prova, a fim de ajudar os candidatos no entendimento desse processo cada vez mais disputadíssimo.

Por ser uma dissertação argumentativa, em que o candidato apresentará, na conclusão, uma proposta de intervenção ao problema focado, deve haver uma postura pragmática diante da prova, ou seja, organizar e selecionar os argumentos apresentados, além de relacionar o tema às áreas do conhecimento.

Ao observar a confecção da prova, desde o início, é possível deduzir que sua montagem se estrutura em seis eixos-temáticos: multiculturalismo, comportamento, meio ambiente, educação, protagonismo social e tecnologia. Logo, de tempos em tempos, esses eixos se revezam, como forma da banca definir o tema da redação. Isso evita repetições de abordagens e possibilita maior abrangência de assuntos.

Para quem não se recorda, esse procedimento é adotado desde a primeira edição, a de 1998, que explorou o seguinte tema: “Viver e Aprender”. O ponto de partida dessa proposta foi um trecho da letra da música do compositor Gonzaguinha, que diz: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”. Detalhe: o candidato não podia citar versos da canção. Aliás, é proibido copiar trechos da coletânea.

Na prova de 1999, os candidatos tiveram de escrever uma dissertação sobre “Cidadania e participação social”. Tal tema voltava-se para o protagonismo social, bem como a de 2011, que explorou: “Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado”. Nesse caso, destacava-se a presença da tecnologia da informação na sociedade e os riscos da hiperexposição nas redes sociais.

A preocupação com o meio ambiente ganhou visibilidade na prova de 2001, pois os candidatos foram levados a refletir sobre “desenvolvimento e preservação ambiental”, a partir do questionamento: “Como conciliar os interesses em conflito?” No decorrer do texto, a banca exigiu que o estudante mostrasse respeito aos direitos humanos. Inclusive, esse quesito tem permeado todas as edições do Enem, configurado até o edital da prova, que é legalista, pois prega o respeito às diferenças, a valorização da liberdade de expressão e o combate à violência, com foco na Constituição de 1988.

No tocante aos temas, ainda, a última vez que a ecologia configurou no exame foi em 2008; portanto, há dez anos. Isso tem levado muitos professores de cursinhos a pressupor que o eixo ambiental poderá ser revisitado, em 2018. Afinal, a situação dos biomas se agravou na última década. Além disso, assunto é o que não falta nessa seara e, mais recentemente, a proibição dos canudos plásticos, em bares e restaurantes, esteve em pauta.

Sobre a proposta de dez anos atrás, a banca apresentava, naquela ocasião, três possibilidades de ação para preservar a floresta Amazônica. Nesse contexto, o candidato deveria escolher uma delas e mostrar seus pontos positivos e negativos. As três possibilidades eram: suspender imediatamente o desmatamento; dar incentivo financeiros a proprietários que deixarem de desmatar; ou ainda aumentar a fiscalização e aplicar multas a quem desmatar.

No que se refere aos temas de 2015, “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”; 2016, “Os caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”, é necessário destacar que essas duas comandas evidenciam um aspecto preponderante da prova que não pode ser desconsiderado pelos concorrentes: o caráter nacional do exame. Ou seja, os dois temas mereceriam, necessariamente, uma análise sob o prisma da brasilidade. Assim, o candidato teria que centrar sua atenção na realidade brasileira, além de levar em conta nossa cultura, nossas contradições, hábitos e costumes.

Aliás, é exatamente isso que torna a prova do Enem algo especial, pois direciona o candidato para uma análise crítica da nossa condição de país, ao focar vários assuntos que estão presentes na sociedade e solicitam atenção das autoridades e das organizações sociais. Assim, não é confortável, independente do tema proposto, fazer certas comparações da nossa situação com a de outros países, por mais que sejamos tentados a fazê-lo. E há temas que nos provocam, principalmente, os que focam a questão da violência, como foi a prova de 2011: “A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo?”.

No entanto, qual é o critério que define os temas da redação? A prova é midiática, ou seja, assuntos que ganharam repercussão nacional e, que interferem na vida das pessoas, são fortes candidatos a se tornarem objetos de redação. Geralmente, a banca que monta a prova fica atenta ao noticiário e a redação é escolhida, em consenso, por especialistas selecionados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), autarquia do Ministério da Educação (MEC) responsável pelo processo. Os temas sugeridos tendem a ser analisados cerca de seis meses antes do dia do exame, e definidos ainda no terceiro trimestre.

Portanto, quem ficou atento aos fatos do final de 2017 até abril deste ano, poderá comprovar a veracidade disso. A fim de não me alongar, deixo a abordagem da matriz de competências para o próximo encontro. Até lá.

João Alvarenga é professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura e, apresenta com Alessandra Santos, o programa Nossa Língua sem Segredos, que vai ao ar pela Cruzeiro FM (92,3 MHz), sempre às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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