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Dor no joelho

Confira o artigo do médico ortopedista Túlio Pereira Cardoso

Túlio Pereira Cardoso

Formada basicamente por três ossos recobertos por cartilagem e contendo dois meniscos, membrana sinovial, cápsula e um conjunto de ligamentos e músculos, a articulação do joelho é bem mais complexa do que parece à primeira vista.

Não é uma dobradiça, mas sim um rolamento assimétrico. À medida que a parte de baixo do fêmur, de forma elíptica, “rola” sobre a parte de cima da tíbia, côncava do lado de dentro e convexa do lado de fora, complexos movimentos posicionam a articulação em diferentes graus de extensão, flexão e rotação interna e externa.

A integridade de cada detalhe anatômico do joelho permite movimentos sincrônicos, repetidos e resistentes a diferentes graus de torção e carga. Qualquer alteração neste conjunto biomecânico leva a um desequilíbrio articular causando alteração dos movimentos e limitando as funções habituais do joelho. Você consegue imaginar alguém correndo sem joelhos?

Por muitos anos os ditos, desarranjos internos do joelho, ou na língua inglesa “internal derangement of the knee” ou “I.D.K.”, também interpretada como “I don’t know” ou “eu não sei”, eram vistos como problemas quase insolúveis.

Com o avanço de instrumentos de diagnóstico e terapia, notadamente na obtenção de imagens por ultrassonografia e ressonância magnética e, principalmente com o advento da artroscopia (*) no final dos anos 60 e início dos anos 70, o tratamento das patologias do joelho deram um salto monumental.

Diversas patologias podem acometer o joelho, dentre as quais processos inflamatórios (ex. artrites), infecciosos (ex. tuberculose), degenerativos (ex. osteoartrose), tumorais (ex. osteosarcoma), metabólicos (ex. gota), traumáticos (ex. lesões meniscais, cartilaginosas e ligamentares)

Estudos mais recentes do metabolismo articular trouxeram à luz conhecimentos mais precisos da composição e função do líquido sinovial. Substâncias como a glicosamina, a condroitina, os hialuronatos, presentes neste liquido, hoje são sintetizadas e administradas como complemento nutricional com propriedades protetoras, nutridoras e lubrificantes para a cartilagem articular.

Diversas alternativas existem para melhorar a qualidade do líquido sinovial com o uso de condroprotetores e viscossuplementadores, substâncias que complementam ou incentivam a produção, e melhoram as propriedades mecânicas e químicas dos componentes articulares.

Bons hábitos evitando o tabagismo, excesso de álcool, dieta equilibrada com baixa ingestão de gorduras, assim como prática de atividade física regular são medidas que colaboram com a saúde geral. Isso inclui a saúde dos joelhos.

O aumento da prática esportiva em suas diversas modalidades, a “ditadura da beleza e do fitness” com um boom de academias e uma variedade de técnicas de treinamento esportivo, elevaram a ocorrência de diversos problemas para os joelhos. Esse novo “mercado de doentes” incentivou o aumento do número de médicos, fisioterapeutas, treinadores e preparadores físicos, todos cada vez mais “especialistas” em joelhos.

Hoje temos diversas formas de tratar os transtornos do joelho com novos medicamentos, avanços na fisioterapia e reabilitação e com cirurgias menos invasivas e traumáticas. As cirurgias que substituem articulações por próteses compostas de metal e plástico, contam com uma grande variedade de modelos e materiais e tornaram-se cirurgias rotineiras.

Atualmente as lesões traumáticas, principalmente aquelas causadas durante a prática esportiva, como o rompimento dos meniscos e de ligamentos do joelho, são tratadas com técnicas cirúrgicas artroscópicas (*), pouco invasivas que permitem melhor precisão diagnóstica e reconstruções mais refinadas. As duas grandes vantagens do uso da artroscopia são a menor agressão cirúrgica e a recuperação mais rápida dos pacientes com retorno ao trabalho e esporte em menos tempo.

Nas fraturas causadas, por exemplo, nos acidentes de trânsito, cada vez mais complexas pela maior potência e velocidade dos veículos, temos a opção do uso de materiais de síntese, ou seja, de fixação dos ossos, de excelente qualidade e com uma diversidade de modelos chegando quase ao “feito sob medida”.

Nos desgastes articulares ou artroses, são inúmeros os artefatos de substituição articular conhecidos como próteses, também feitos praticamente sob medida e com materiais biocompativeis, i.e., que não causam rejeição, e com durabilidade em torno de 20 anos.

A correção das deformidades, a supressão da dor e o retorno à “vida normal” são relativamente rápidos e o período de internação hospitalar é cada vez menor. As investigações das reações imunológicas prometem transplantes meniscais, de cartilagem e de segmentos ósseos e osteoarticulares em futuro próximo.

A engenharia de tecidos com cultura de células deve mudar sensivelmente a abordagem terapêutica das lesões do joelho nas próximas décadas. Estudos recentes com biomateriais são bastante promissores no tratamento das doenças da cartilagem e na substituição de meniscos por próteses biológicas.

Nossa responsabilidade é grande. Devemos continuar formando médicos com conhecimento amplo e global de “doentes e doenças” sem esquecer que o princípio do “primo non nocere”, ou seja, “primeiro não causar mais mal” deve continuar norteando a atividade médica e colaborando no cuidado com aqueles que sofrem cada vez mais com “dor no joelho”.

artroscopia (*) = técnica diagnóstica e cirúrgica que utiliza o “artroscopio”, instrumento óptico que permite visão intrarticular transmitida para monitor de alta definição e instrumental de corte (pinças, tesouras etc…). Não utiliza laser.

Dr. Túlio Pereira Cardoso é médico ortopedista com título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e mestre pela Pontificia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

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