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Do que pode terminar em pizza

Confira o artigo do médico pediatra Edgard Steffen
Do que pode terminar em pizza
Crédito da foto: Pedro Negrão / Arquivo JCS (29/62012)

Edgard Steffen

Pensar em pizza faz abrir sorrisos (…) resgata a memóriade momentos inesquecíveis com a família e os amigos…

(Carlos Araújo — Dia da Pizza — CS, 10/7/2019 pag. 7)

Fazenda de café hora do almoço em família. Imensa sala de jantar limpa, arrumada, encerada, brilhando. Sobre a toalha de linho fumegam travessas e terrinas. Comida quente, cheirosa e gostosa feita no fogão a lenha. Enquanto a família almoça, cavalo puxado pelo avô fazendeiro, anda e defeca em torno da grande mesa. (O equino. Anoto para evitar equívocos.) Na sela, menina. De um lado da alimária a avó, noutro a mãe. Cada uma delas com prato à mão, oferecendo colheradas à criança. Cena de chanchada? Nem Mazzaropi, genial caipira, seria capaz de imaginá-la.

Contou-me furibunda tia da anoréxica. Filha única, veio um dia brincar com as primas, sem companhia da mãe ou da avó. Comeu feito gente grande. Quando estas souberam do milagre, todos os dias passaram a levar a inapetente à fazenda. Durou pouco a estratégia. A garotinha voltou a recusar alimento. Lembraram-se que, antes do milagre feito pela comida da tia, ela aceitara papinha, andando no cavalo do avô. O resto vocês já adivinharam.

Outra cena, outra família. Na mesa farta, presentes os avós. O patriarca observou que a nora se desdobrava para atender preferências de cada filho. Multiplicava os itens do cardápio porque um dos filhos não gostava de frango, outro de peixe, outro não comia legumes. O velho pontificou — “No meu tempo, quando alguém recusava comida por não gostar dela, meu pai chamava a cozinheira e dava a ordem: naquele dia, aquele filho iria ter à disposição somente uma espécie de alimento. Aquele recusado. Todos da minha família aprenderam a gostar de tudo.” Um dos netos, rápido aos irmãos — “Vamos combinar; se o papai implantar essa lei do vovô, vamos todos dizer que não gostamos de pizza!”

Nos meus tempos de pediatra/puericultor observei que o apetite normal obedece a lei da oferta e da procura. Quanto maior a oferta — expressa pela insistência e artifícios dos adultos — menor a aceitação e maior os caprichos da criança para ser alimentada. A recíproca é verdadeira. Em casa onde o alimento é escasso, crianças brigam para garantir sua quota de calorias e nutrientes. Diferente do dito popular, brigam com razão. Além de calorias, o instinto as leva buscar micronutrientes insuficientes na dieta. É o caso das que comem o barro (rico em ferro) ou o cal das paredes (fonte de cálcio).

O grande atrapalhador, no caso das crianças sadias, pode ser o ambiente que as cerca. Genitores e avós ansiosos costumam relacionar diminuição do apetite — normal nos períodos de estiramento — com doença.

Claro que estou simplificando ao extremo. Mas os conflitos familiais, o cultivar do complexo de culpa (Onde estou errando?…), doenças crônicas ou episódicas perturbam a vontade de comer.

Você já viu criança não gostar de pizza? São raras. Se a família pede delivery é porque não lhe faltam recursos para alimentação. Se vai para jantar numa pizzaria, vive momentos de lazer que desanuviam conflitos e preocupações comuns no convívio diário.

A frase do Araújo ilustradora desta crônica começa com “pensar” e termina com a afirmação “…comer pizza é melhor ainda”. Como se pode deduzir, até a falta de apetite pode acabar em pizza.

Sorocaba, 10/7/2019 Dia da Pizza

Edgard Steffen é médico pediatra — e-mail – edgard.steffen@gmail.com

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