Dia Mundial da Limpeza

Por

Sandro Donnini Mancini

Sábado passado, dia 21 de setembro, ocorreu o Dia Mundial da Limpeza. Em todo o mundo, e em Sorocaba inclusive, milhares de ativistas se reuniram com muita boa vontade para verdadeiros mutirões de limpeza, preferencialmente em praias ou rios. Um gesto louvável, sem dúvida. Mas um gesto simbólico. Afinal traz, infelizmente, o símbolo de ser uma ação inócua, pois nem que os mutirões fossem muito maiores do que foram, teriam removido toda a sujeira que toma conta dos rios e praias. E pior, mesmo se tivessem conseguido, hoje já estaria tudo sujo novamente. Mas o símbolo maior e bem mais importante é mostrar para todos os que sujaram, que a poluição deixada por eles incomoda e que tem gente que não consegue ficar quieta vendo a sujeira se acumulando.

Há em muitas pessoas uma confusão sobre o termo “público”. Uma rua, um rio, uma praia são públicas. Logo, são espaços de todos e todos são “donos”. E todos devem cuidar como cuidam de suas casas. Algumas pessoas acham que público significa algo “que não tem dono”, que não é de ninguém. Logo, sujar “não é problema meu”. O duro que é sim.

Muitos reclamam que nas ruas e praias não tem lixeiras e que, por isso, estes locais acabam ficando sujos. Nada pode estar tão distante da realidade que isso, pois todos sabem que é errado deixar o lixo em qualquer lugar que não seja num cesto. Afinal, imagine o exemplo: uma pessoa resolveu comer uma banana assistindo à televisão na sala de sua casa. Só que na sala não tem lixeira. O que a pessoa faz com a casca da banana? Joga no chão porque não tem lixeira? Não, a pessoa se levanta e vai para a cozinha, jogar no lixinho da pia. É assim que todos tratam a sua casa, porque afinal, há o sentimento de propriedade ali. E porque não há esse sentimento numa praia, numa rua, num rio? Taí uma boa pergunta.

Certamente não é fácil fazer com que uma pessoa que acha que deve jogar um papel pela janela do carro ou deixar uma lata de cerveja vazia na praia entenda que não é sacrifício nenhum e sim obrigação segurar seus resíduos até chegar o momento e local adequado para descartar. Aí, um simples canudinho descartado sabe-se lá quando numa praia qualquer vai parar no nariz de uma tartaruga marinha na Costa Rica. A cena da retirada do canudo impressiona, pois a tartaruga visivelmente sofre com a dor e sangue da coitada jorra. Qualquer pessoa comum sente muita raiva do imbecil que deixou o canudinho lá. O vídeo viraliza e, em pouco tempo, achou-se o culpado: o canudinho. Assim, começam a proliferar, inclusive em Sorocaba, legislações proibindo os canudinhos. É um jeito de tentar resolver o problema, mas não resolve.

Não resolve porque o imbecil que descartou o canudo provavelmente não sabe o estrago que causou. Não resolve porque mesmo se o imbecil desconfiar que foi ele, talvez nem ligue. Não resolve porque se sabe que existem muitos outros imbecis que vão continuar tendo esse comportamento. Não resolve porque mesmo com a lei, canudinhos continuam sendo distribuídos (inclusive em Sorocaba). Não resolve porque, mesmo se não existissem mais canudos a disposição, outros produtos descartáveis iam continuar emporcalhando nossas cidades, rios e praias. Não resolve porque os canudos são só a “bola da vez”, ou o “boi de piranha”, pois coloca-se o holofote num produto que representa bem pouco em termos de resíduos sólidos, enquanto outros bem piores continuam sendo comercializados livremente.

A solução então é oferecer educação ambiental para todos? Não! Afinal quem joga lixo na rua, nos rios e praias o faz porque não tem educação, simplesmente, e não porque faltou uma professora no ensino fundamental explicar que lixo tem de ser jogado no lixo (sinceramente, duvido que faltou).

Temos que educar todos? Não, pois já abordamos que quem faz isso tem educação, ainda que seletiva, pois em casa faz direito e em público não.

Temos que conscientizar todos? Sim, inclusive imbecis, o que não é fácil. Mas temos que tentar. Essa é a ideia do Dia Mundial da Limpeza.

Sandro Donnini Mancini (sandro.d.mancini@unesp.br) é professor da Unesp-Sorocaba.