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Deuses e Ídolos

Adoradores de divindades de pedra ou madeira desapareceram no tempo


Edgard Steffen

Verdadeiramente, tu és Deus misterioso, ó Deus de Israel…

Isaías-45:15

Continuo minhas elucubrações e devaneios paleoantropológicos de botequim (embora não o frequente). Recém-descido delas, o hominídeo usava árvores como pontos de referência — hiperprimitivo GPS — e refúgio instantâneo contra feras do bioma onde colhia sementes e restos de carcaças. Ao presenciar raios, com intensa luminosidade e grande estrondo, incendiar árvores e matar animais sentiu medo maior do que ante as bestas-feras. Mesmo depois de atingir o estado sapiens, o pavor era maior do que previa o instinto de conservação. Pode ter sido a primeira noção de um poderoso ente fora dos seus cinco sentidos. Quando guardou o fogo produzido pela luz-estrondo viu que a fogueira aquecia a prole, amolecia os alimentos e servia para afugentar predadores. Sentiu que o impalpável ente produzia medo mas também gerava conforto e proteção. A melhoria alimentar providenciada pelo fogo apressou o advento do Homo sapiens. Este, olhou para cima e imaginou o firmamento lugar da morada do senhor dos raios.

Quando, milênios mais tarde, organizou-se em clãs, cada etnia individualizou sua origem a partir de alguma espécie animal. Passou a cultuar totens com a divindade zoológica representada nos postes.

Na Antiguidade Oriental, evoluído e vivendo em cidades-nações, multiplicou deuses ao sabor de seus medos e objetivos. Os egípcios, em vez dos postes ídolos, adoraram deuses antropozoomorfos. Anubis, deus dos mortos, era representado com cabeça de chacal. Hórus, deus da guerra, com cabeça de falcão. Os gregos humanizaram as divindades, dando-lhes forma humana, poderes específicos, defeitos e fraquezas. Esses deuses demasiadamente humanos foram adotados pelos romanos. Apenas mudaram os nomes. Júpiter em lugar de Zeus, Afrodite virou Vênus; Eros, Cupido; Poseidon, Netuno…

Adoradores de divindades de pedra ou madeira desapareceram no tempo. Italianos, gregos e egípcios de nossos dias nada têm em comum com os que dominaram o mundo conhecido. Que fim levaram os babilônios, os hititas, os assírios? E os filisteus (hititas?) poderosos fabricantes de armas de ferro? Ficaram seus feitos, desapareceram seus deuses. Fáceis de cultuar, difíceis de carregar.

Abraão inaugurou a concepção de um Deus Supremo. Adonai não pesava. Pela fé, podia ser transportado nos corações e mentes. O Javé (respeitado ao ponto de evitarem pronunciar seu nome) de Abrão, Isaac, Jacó e Moisés acompanhou os hebreus na fuga do Egito, na conquista da Terra Prometida, no cativeiro da Babilônia, na dispersão pós-destruição do templo de Jerusalém pelo Império Romano, nos pogrons da Rússia czarista ou stalinista ou no Holocausto dos campos de extermínio. Estava presente tanto na diáspora como no sionismo. Dos hebreus transmudados em judeus, nasceria a Civilização Judaico-Cristã. Cumprimento da promessa de uma nação incontável como as estrelas (Gênesis 15;5).

Brasil acima de tudo. Deus acima de todos. O lema do governo atual colocando Deus acima de tudo, não contraria nem põe em perigo o estado laico estabelecido desde a instituição da República. A assertiva revela apenas que somos partícipes da civilização judaico-cristã. Para quem não crê, fantasia. Para os que creem, pleonástico. Se o Eterno é criador de tudo, inclusive das leis que regem o Universo, o lema contém obviedade. Está acima de tudo, independente dos que o louvem ou dos que o ignorem.

Um teólogo moderno afirmou que o Deus dos cristãos é um Deus difícil de ser entendido. Concordo. Poderia ter vindo à terra dos homens exibindo plenitude de seu poder. Preferiu a família e a humildade da manjedoura. Poderia simplesmente ter descido da cruz e fulminado os que o martirizavam. Preferiu perdoá-los. Entregou-se ao sacrifício. Pela Ressurreição, possibilita ao Homo sapiens — incapacitado por sabedoria finita — vislumbre da Sabedoria Infinita. Possível apenas pela Fé. Não pela Ciência.

Boa Páscoa para todos!

*Edgard Steffen é médico pediatra e escreve para o Cruzeiro do Sul — edgard.steffen@gmail.com

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