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Dedos

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Crédito da foto: Vanessa Tenor

Aldo Vannucchi

No turbilhão de fatos e factoides da campanha eleitoral, correu a proposta de incentivar os alunos das escolas púbicas a delatarem professores que estivessem “doutrinando”. Espero que essa ideia venenosa não prospere. Levada a termo, estaríamos provendo a coroação do dedo-duro. O aluno substituiria a cabeça atenta pelo dedo rijo a apontar o mestre, de forma policialesca. E o Brasil se encaminharia para uma sociedade baseada na delação permanente dos “maus” pelos “bons”, a sociedade do dedo-duro.

O Brasil que queremos, neste novo mandato presidencial, é de cidadãos desarmados, ideologicamente, e ajuizados, politicamente. Juízo, numa palavra, é o que se espera, logo mais, de governantes e governados. Juízo, discernimento, equilíbrio mental, tudo isso ajuda a evitar truculências, de um lado, e subserviências, de outro. Não precisamos de Governo que resolva tudo com fala grossa e punho de ferro. Melhor um Presidente firme, mas sereno, capaz de escolher a dedo seus propósitos e seus prepostos.

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Um dedo também de boa prosa entre líderes atualmente reconhecidos e expoentes da nova safra dirigente ajudaria mais que bombásticos anúncios proclamados nas redes sociais contra qualquer eventual mudança no jeito de governar o País. Pela bandeira da democracia e defesa dos direitos básicos individuais, sobretudo dos mais vulneráveis, estarão concordes todos os cidadãos que preferem o diálogo à confrontação.

Agrade ou não o resultado das recentes eleições, o Brasil segue comprometido com a democracia, não apenas na sua roupagem constitucional, mas no que ela define para o exercício prático e responsável da nossa cidadania. Já aprendemos e sofremos demais em ditaduras passadas, com vozes asfixiadas pela censura e dedos manchados de sangue pela tortura. Esse Brasil, nunca mais.

Democracia sem disfarce é o que todos queremos, sem partido único e também sem partidos de fachada. Democracia com foro de liberdade para pouquíssimos e a prática da responsabilidade para todos. Democracia real, em que não se precisa ficar cheio de dedos para expressar opiniões divergentes do poder constituído e de poderes inventados. Democracia em que seja menos difícil viver o hoje e acreditar no amanhã.

Somos uma República onde só cabe o poder como serviço e não o poder como dominação. Aqui quem manda e quem obedece deve pautar sua vida pelos valores mais altos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos. Império, aqui, só o da lei, consubstanciada na Constituição Federal. Por esse princípio, a alternância de poder a se instaurar em 1º de janeiro só pode ser respeitada. Para vencedores e derrotados, é bom lembrar a velha recomendação de Spinoza, dedo em riste: “nem rir nem chorar, mas entender”.

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Entender, no caso, equivale a conhecer e exercer com descortino os direitos e os deveres de uma cidadania democrática, ao longo do próximo quadriênio, sem medo de pôr o dedo nas feridas eventualmente provocadas por autoridades violentas e, ao mesmo tempo, com sabedoria para apoiar mudanças que ajudem a estabilizar o País.

Enfim, que o novo Governo acerte a mão e que seja com mão de dedos limpos de pólvora e de corrupção.

Dedo de Deus é um pico com 1 692 metros de altitude cujo contorno se assemelha a uma mão apontando o dedo indicador para o céu.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) — aldo.vannucchi@uniso.br

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