De patos e política

Por

Crédito da foto: Getty Images

Crédito da foto: Getty Images

Edgard Steffen

Never waste powder on a dead duck

(Nunca desperdice pólvora com um pato morto)

(Provérbio americano)

Imagino que este provérbio tenha surgido entre caçadores na colonização da América do Norte. Ter pólvora ao alcance poderia significar sobrevivência, se durante a caçada surgisse alguma fera ou índio de tribo hostil. O colono mantinha a munição seca e não a gastava à toa. Deste provérbio teria derivado a figura do “pato manco” (lame duck) usado para designar mandatários em baixa popularidade, incapazes de serem reeleitos.

Você deve estar perguntando por que resolvi escrever sobre patos. Respondo. O que vejo no espelho, logo pela manhã, em nada me lembra o retratinho que ilustra este artigo. Embora goste de escrever sobre o passado, mais pareço Doc Brown, cientista excêntrico do “De Volta para o Futuro”¹ acrescido de nieztcheano bigode. Tudo porque o Brasil parou de trabalhar.

O Cruzeiro do Sul é minha primeira leitura. Lendo-o descobri que sou mais velho que o Pato Donald². Consola-me ter mais idade, mas não ser tão azarado, não ter a voz grasnada nem o pavio tão curto. Resolvo dar uma navegada pela internet à busca de assunto.

Contos infantis clássicos eram estórias onde nobres e vassalos interagiam num contexto monárquico fantástico, cheio de fadas, bruxas, do bem ou do mal. Havia sempre um rei (ou rainha, príncipe, princesa) bonzinho para compensar maldições e feitiços. Os Irmãos Grimm, Charles Perrault, Hans Cristian Andersen e outros recontavam mitos da Idade Média, sem julgamentos de valor.

Os personagens antropomorfos disneyanos refletem os USA dos anos em que foram criados. Walt Disney colocou sobre duas pernas ratos (Mickey Mouse) vacas (Clarabela), cães (Pateta e os irmãos Bafo de Onça), vestidos e comportando-se como gente. Naquele tempo a Liga da Decência -- vetava até cama de casal por simular local de sexo -- decidia o que Holywood podia ou não podia mostrar. Desafiá-la resultava em fracasso de bilheteria. Assim como o Fantasma e Diana Palmer, Mandrake e Princesa Narda, Superhomem e Lois Lane --- Mikey&Minnie, Pato Donald&Margarida eram apenas namorados; em vez de filhos, cuidavam de sobrinhos. A família Donald humanizada foi desenhada com roupas apenas na parte superior do corpo. Donald usa roupa de marinheiro, jeito de mantê-lo subliminarmente na água. Ausência de roupa na parte abdominal sugere adequada escondedura da genitália.

Donald Duck -- este seu nome no RG -- surgiu como amigo do Mickey Mouse muito antes deste virar periférico de computador. Depois ganhou vida própria, namorada, sobrinhos e parentes. O mais famoso foi o tio milionário escocês (Scrooge M’c Duck), claramente inspirado em Ebenezer Scrooge do Conto de Natal de Charles Dickens. Tio Patinhas -- nome talvez inspirado no boliviano Antenor Patiño Rodriguez, “Rei do Estanho”, uma das maiores fortunas do mundo -- revelava o capitalismo selvagem das tiras e desenhos animados. Marxistas do Chile, em tempos de Allende, acusaram Disney de comunicação de massa em favor do colonialismo³.

Chega de patati patatá. O Donald lá do norte, apesar das patacoadas, parece caminhar para a reeleição. Aqui no Hemisfério Sul, tem muita gente gastando pólvora para transformar o nosso atrapalhado governante em pato manco. Colaboram as patadas, o pavio curto do próprio e as travessuras do trio Huguinho, Zezinho e Luizinho. Sem contar os joãos-bafos-de-onça que aproveitam a pandemia para faturar a maior.

De minha parte, torço por três coisas: Que a pandemia passe logo. Que a campanha “Unidos Somos Fortes”, lançada pela FUA neste jornal, para o combate à Covid-19 e apoio às pessoas, dê ótimos e abundantes frutos. Que o Brasil volte a trabalhar. Brasil é o barbeiro bom baiano que cuida de meu cabelo e bigode na rua Treze de Maio.

1 Doc Brown interpretado por Christopher Lloyd

2 Mais Cruzeiro 10/06/2020, pág. 14

3 Dorfman, A & Mattelart, A Para Ler o Pato Donald, 1970

Sorocaba, em dias de Unidos Somos Fortes

Edgard Steffen é escritor e médico pediatra. E-mail: edgard.steffen@gmail.com