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De amigos e sorocabanos

Fácil fazer amigos na vida escolar, na mocidade, no esporte, no trabalho
De amigos e sorocabanos
Crédito da foto: Michael Heiman / Getty Images / AFP

Edgard Steffen

O valor das coisas está (…) na intensidade com que acontecem.

Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis

e pessoas incomparáveis. (Fernando Pessoa)

Entre os amigos ainda vivos, Áureo Cavaggioni — o mais antigo está bem de saúde apesar dos 89 anos calcados sobre as costas. Nossa amizade data de 1938. O que vem em segundo lugar (1940), foi alcançado pelo Alzheimer e interrompeu a maior parte dos contatos com o mundo que o cerca.

Fazemos e perdemos amizades em nossa trajetória. Fácil fazer amigos na vida escolar, na mocidade, no esporte, no trabalho. Mesmo quando, pelo casamento nos encastelamos no grupo familial, a empatia nos leva a conhecer outras pessoas em atividades, hobbies, crenças afins. Na idade provecta, importante preservar velhas amizades. Perdidas, dificilmente serão repostas.

Antes de conhecer a Terra Rasgada tive bom amigo sorocabano. Em Itu, frequentávamos a mesma escola, igreja e morávamos em ruas paralelas. Jayme Dias de Carvalho demonstrava orgulho ao contar das gentes e das coisas de Sorocaba. Ao mudar-me de cidade, perdi o contato com ele. Em 1950, preparando-me para os vestibulares da medicina, avisaram-me do acidente. Meu amigo, ao tentar embarque num trem em movimento, caíra sob a composição. Fui visitá-lo no Santa Lucinda. Estava paraplégico. Chorou copiosamente ao me ver. Dizia ser aquela a última vez que nos veríamos. Não tem solução para mim, lamentou. Não encontrei palavras para consolá-lo ou animá-lo. Encerrei a visita deprimido. Pensei em desistir de meu projeto de ser médico. Duvidei de minha capacidade em amparar gente em sofrimento. Meu primeiro amigo sorocabano faleceu logo em seguida.

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Meu segundo sorocabano amigo foi Álvaro Germano Augusto Gutierrez. Em janeiro de 1950, acompanhou-me ao Hospital Evangélico para apresentar-me ao professor Linneu Mattos Silveira, diretor da futura Faculdade. A pé, saímos da Livraria Gutierrez em direção ao Além Ponte até alcançar o primitivo hospital à rua Manoel Lopes (abriga hoje a Casa de España). Na antessala do centro cirúrgico, conversamos até que o médico terminasse uma cirurgia. Tínhamos a mesma idade o que fez rolar fácil a prosa. Anos mais tarde, eu pediatra ele cirurgião, compartilharíamos vários casos. Álvaro tornou-se um dos médicos mais estudiosos da região. Perfeccionista, desenhava cada passo das cirurgias eletivas, antes de realizá-las. Num 31 de dezembro, quase noite, atendi menino com apendicite aguda. Encaminhei-o para o companheiro. Mesmo sabendo que perderia as comemorações de encerramento do ano e das dificuldades financeiras da família do paciente, Álvaro operou o menino. Tranquilizou o pai. “Você me paga se, quando e como puder. O importante é a vida de seu filho”. Este belo exemplo de testemunho cristão, contou-me o pai da criança.

Consternado recebo a notícia. Perdemos o Dal. Engenheiro destacado. Humanista. Inteligência e erudição acima da média. Crítico mordaz na avaliação das figuras públicas. Fui pediatra de suas filhas, mas pude melhor conhecê-lo quando participávamos do governo Paulo Mendes. Antes das reuniões de planejamento e trabalho, costumava brindar-nos com truques de matemática ou textos de Fernando Pessoa. Apreciava bons textos e boa música. Compartilhamos as tertúlias do Movimento do Cafezinho Literário e esta página do Cruzeiro do Sul. Suas crônicas traziam novidades, eram ágeis e de saborosa leitura. Ocupante da cadeira Euclides da Cunha, destacou-se entre confrades da Academia Sorocabana de Letras. Ao matemágico especialista em trânsito — planejou o sistema viário de Sorocaba, projetou a pista do autódromo para a fazenda de Ayrton Senna (Tatuí) — devo o estímulo para publicar meu primeiro livro. Vinha buscar e levar-me à Ottoni Editora nas várias fases da edição do “Anjinho dos pés tortos”. Bom esposo, dedicado pai, orgulhoso avô, atento à família de origem. Lutou pela recuperação da saúde pessoal com tenacidade.

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Engenheiro, matemático, escritor, cronista e incomparável amigo dos amigos

]Adalberto do Nascimento

(1946 – 2019)

Resquiescat in pacem.

Edgard Steffen é médico pediatra — e-mail: edgard.steffen@gmail.com

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