Datado
Neusa Gatto
Então, um olhou pro outro na sala daquela casa de esquina. Ouviam música. Talvez Donovan ou Cat Stevens. Tarde quente de verão. Se amavam. Simplesmente. Gostavam da companhia um do outro. O prazer em estar juntos.
Sentimentos de muito longe. Da tarde em que se conheceram naquele bar da Brigadeiro Luís Antônio. Entre muitas cervejas, a conversa que evolui pela noite. Na despedida, uma expectativa de se verem de novo. Que aconteceu por muitos anos dali pra frente.
Dias felizes, alegres. Caipirinhas de vodca. Chopp gelado. Um certo macarrão, especialidade dele, com toque de canela. Um sabor especial, ao gosto dela. Forever.
Cenas de um passado, que, agora, com aquela carta, anônima nas mãos, explodiam no presente. De uma forma inexplicável. Alguém muito amado voltava naquelas linhas. O jeito de falar. De se expressar....
Letra bonita. Segura. Dos bilhetes que deixava na cama. Na dedicatória num disco raro. Nas cartas, que gostava de escrever, de próprio punho, quando viajava.
Cenas e cenas dos momentos vividos a dois.
E, então, viaja nas memórias. Ela, ali, de passagem pela cozinha, com mais cervejinha pros dois. Ele, agachado, compenetrado na estante à procura do tabuleiro de gamão. Sorri. Dá um grande e sedento gole e ela ganha um beijo com gosto de cerveja gelada.
Respira fundo. Senta no sofá. Treme um pouco. Está emocionada. Olha o envelope, de um azul claríssimo, quase cinza, com as bordas tracejadas em azul e vermelho. Dele, sem dúvida.
Tinha outras iguais. De um tempo em que ele viajava. E escrevia, escrevia. Nunca mais releu. Talvez, hoje....
Vai lembrar, com certeza, daquele dia que ele chegou de viagem. Depois do amor, do afeto do reencontro, de mãos dadas, caminham pela rua. Felizes. Ela, com aquela camiseta verde água com decote generoso que ele gostava. A que trazia uma pequena sardinha desenhada: Mimi -- Le sardine. Nos pés, o tênis amarelo, presente dele depois de uma briga.
Ele, com sua túnica árabe, um kaftan, velho, listrado de azul e branco. Que ela às vezes usava também. Ousava ele o gosto tradicional da vizinhança. De rabo de cavalo e passos largos, lá iam os dois, ao som do toc, toc, toc, do tamanco tipo holandês dele.
Chega a sentir o calor do sol na varanda do bar onde ficam a jogar gamão, companheiro de muitas horas... viagens... tardes na praia.
Parceiro silencioso. De conversas. Confidências. Ideias. Medos. Risadas. Desentendimentos até, que agora parecem tão banais pra ela.
O passado, datado em sua memória, está ali, vivo, naquelas linhas.
Aumenta o som. Chora baixinho. No rádio, um cantor com voz suave parece conversar com ela. Na triste melodia, diz que há uma música que não sai de sua cabeça. O som que o faz lembrar de uma pessoa muito especial em sua vida.
Como eles dois, pensa ela. Também tinham aquela canção que era deles. Que quando tocava sabiam que era dos dois.
Submerge à mensagem que agora é um lamento, que se confunde com o seu agora. Relembra, como o homem que canta, os erros do passado. E, como a ler seus sentimentos, o cantor se pergunta lamurioso, se a pessoa amada pode ouvir seus pensamentos através da chuva que cai pela cidade.
Ela se levanta do sofá. Com a carta na mão caminha para a porta. A música do rádio vai com ela. Ao fundo, ainda se ouve a voz que vem da canção pedir: “por favor, ouça este homem. Ele diz que o que fala pode ser você e eu.”
Neusa Gatto é jornalista, produtora de vídeos e escreve para o Cruzeiro do Sul.