Artigos

Crônica enluarada

Confira a coluna do médico pediatra Edgard Steffen
Crônica enluarada
Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (23/4/2015)

Edgard Steffen

Errabunda* Luna, dulcis errabunda, Septies diebus evanescit, Saepe hominibus totis refulget, Sed, pudica, Tamen nuda semper,

Nonnulli hominis non est

Neste 20 de julho, após três dias de viagem, o módulo Águia pousou no solo lunar em 1969. O “pequeno passo” de Neil Armstrong simbolizou a vitória do homem sobre as distâncias.

Quando o recém-surgido Homo sapiens olhou para o céu, imaginou os corpos celestes entes superiores e as respectivas claridades dádivas a ele concedidas. Levou milênios observando formas e posições da lua no firmamento, até conseguir usá-la para dividir uma abstração incorporada ao atributo “sapiens” — noção de tempo. A partir daí, outros milênios foram criando lendas até que algum primitivo sonhador ousasse expressar onírica pretensão de pisar o solo do satélite. Se o fez junto ao fogo que aquecia o grupo, deve ter levado um tacape na cabeça para deixar de ser besta. Se o hipotético candidato a astronauta surgisse na Idade Média seria premiado com asilo, masmorra ou chibata. Onde já se viu sair do centro do universo? Só mesmo um lunático!

Sento frente ao meu PC na data em que se comemora o lançamento da Apolo 11. Recordo. A maravilha da comunicação, via satélite, permitiu que meus filhos — tirados da cama, esfregando olhos de sono interrompido — assistissem e acompanhassem as pegadas impressas pelo astronauta no solo do satélite.

Nunca fui apreciador de ficção científica. Na infância, leitor ávido dos quadrinhos de O Globo Juvenil, preferia Fantasma, Tarzan, Príncipe Valente e Zorro (com Tonto e Silver) a Flash Gordon, Buck Rogers ou Brick Bradford. Na Juventude, não curti Júlio Verne nem me entusiasmei com Aldous Husley ou H. G. Wells. Preferia contos policiais da X9 ou novelas de Cronin, Dickens, Sommerset Maughan e Pitigrilli.

Adolescente fui morar em Campinas na casa de meu tio Carlos Oscar Fahl. Homem correto, temente a Deus e à frente de seu tempo. Acompanhava nos jornais as novidades em todo mundo e, em especial, a 2ª Grande Guerra. Quando as bombas voadoras a jato começaram a infernizar a vida dos londrinos, profetizou. — “Quero viver 100 anos, para ver o homem chegar à lua”. Adolescente — numa época em que se podia pensar, mas sem contestar os mais velhos — respeitosamente coloquei Tio Oscar na categoria dos visionários. Vencer a gravidade? Cruzar o vazio de atmosfera? Descer num lugar sem plantas nem água? Isso é coisa para escritores de lorotas. O feito não cabia em minha imaginação nem na física, química e biologia que me ensinavam no colégio. Quando a Nasa exibiu sua conquista, lembrei de meu tio. Lágrimas nos olhos, pela saudade, aperto no coração por haver subestimado a previsão daquele homem. Tivesse sobrevivido à pertinaz moléstia que o levou em 1946, teria presenciado a conquista da lua.

Os astronautas fincaram uma bandeira de alumínio com as cores do seu País. Mas isso não pode significar posse. Quem sabe os poetas são donatários? Resolvo pesquisar a lira dos trovadores. Uso pequena memória pessoal, auxiliada pela incomensurável memória internética, para garimpar curiosidades.

Começo com versos latinos pinçados de José Fernando Nondê. Uso-os para ilustrar esta enluarada crônica. No Cântico dos Cânticos, atribuído a Salomão, o coro refere-se à amada formosa como a lua (6:10). De Caetano Veloso separo Lua de São Jorge / Cheia, branca inteira, / Ó minha bandeira / Solta na amplidão. Chiquinha Gonzaga, muito antes de foguetes e satélites, cantou fulgores (talvez só pra rimar amores). Ó lua cheia de fulgores e de encanto! / Se é verdade que ao amor tu dás abrigo / Vem enxugar dos olhos meus o pranto / Ó vem guardar essa paixão que vai comigo! Vicente Celestino esgoelou nos versos de Evaldo Braga: Lua, manda tua luz prateada despertar minha amada. Cely Campelo, nos anos dourados, tomaria banho de lua para ficar branca como a neve. Velha marchinha de Carnaval cantava Todos eles / estão errados / a lua é / dos namorados. Para reafirmar ausência de proprietários, transcrevo tradução de Errabunda*: Esta doce vadia,/Some por sete dias,/Noutros brilha para todo mundo,/Mas, pudica,/Mesmo que sempre nua/Não é de ninguém.

Edgard Steffen é médico pediatra e escritor. E-mail — edgard.steffen@gmail.com

Comentários

CLASSICRUZEIRO