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Copa do Mundo: um balanço

Nelson Fonceca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com 

Ninguém passa pela Copa sem arranhões. Amando ou odiando, somos afetados de quatro em quatro anos. Os que amam não conseguem deixar de ver um jogo mixuruca como Panamá X Tunísia. Os que odeiam são assaltados por propagandas cafonas e por rojões desnecessários. Os que amam, em questão de poucas semanas, passam da euforia à melancolia, conforme o domingo do jogo final vai chegando. Os que odeiam respiram aliviados. Quem está certo? Impossível responder.

Como sou fanático por futebol, pertenço ao grupo dos que amam a Copa. Mas não é um amor cego, cumpre esclarecer. Não deixo os compromissos de lado para ver Egito X Arábia Saudita. Não pinto o rosto de verde e amarelo. Nem chego perto de um rojão. Acho que é um amor maduro, sábio, clássico.

Se ignoro alguns jogos, não perco alguns desses programas de debates futebolísticos. Quando vejo um desses programas, eu agradeço aos céus pela existência da TV a cabo. É osso duro de roer depender das patriotadas do Galvão Bueno. Nos programas da TV a cabo, há, ao menos, uma tentativa de discutir os jogos com inteligência. Às vezes, um jornalista exagera na tara por estatísticas e táticas, deixando de lado o componente passional do evento, mas tudo bem. Pelo menos, nesses programas, não ouviremos que o Lukaku, genial jogador da Bélgica, é pesadão e não sai da área. Quem viu o jogo em que o Brasil foi eliminado percebeu como o Lukaku é pesadão e não sai da área. É só reparar no segundo gol.

Como um mantra, a palavra “profissionalismo” está na boca dos que comentam as mazelas do futebol brasileiro. Não importa se o comentarista é bom ou fuleiro. “Profissionalismo” resolve todas as crises. O que não deixa de ser paradoxal. O comentarista profissional ganha para entender de futebol e diz que o Neymar tem tudo para resolver o jogo sozinho.

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Falando em Neymar, quanta abobrinha, hein? São Roque tem o festival da alcachofra, e nós temos o festival da abobrinha. Como sempre, as besteiras vieram dos extremos. O extremo bonzinho ainda trata o Neymar como uma criança frágil, carente, necessitada de afagos e beijinhos de incentivo. É a turma do “menino Ney”. O extremo linchador descobriu que o Neymar é a fonte de todos os males. De acordo com os linchadores, as encenações do Neymar tiraram o Brasil da Copa. Nem um extremo, nem outro. Neymar é um craque que precisa melhorar muito. Tem muita lenha pra queimar ainda. Só precisa baixar um pouco a bola. Impossível dizer como será o cenário daqui a quatro anos. A depender das propagandas que surgiram logo depois da derrota para a Bélgica, o paraíso nos espera em 2022.

Longe de mim acreditar que eu sou um sujeito de vanguarda, que vê sozinho o que a massa ignora. Mas preciso perguntar: repararam nas propagandas veiculadas antes da derrota? Davam como certo o hexa. Todo mundo em festa. Bastaria o menino Ney usar toda sua ginga para levantarmos o caneco. E a vitória da seleção seria a vitória da nação que está se recuperando. Como alguém, em sã consciência, pode cair numa presepada dessas?

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Falando ainda em propaganda, deu dó do Tite. Transformaram o querido Tite numa espécie de xamã, de sábio da aldeia. A convicção era a seguinte: bastaria o Tite lançar um olhar concentrado para o campo para que todos nós saíssemos comemorando loucamente. Tudo bem, o Tite deu trela, com aquele jeitão de professor sereno, mas que foi triste, foi. Se o Tite continuar no comando da seleção, acho que a lição foi aprendida.

A derrota para a Bélgica não foi digerida com fúria. Quem tem idade para tanto vai lembrar da raiva contra os jogadores eliminados pela Argentina em 1990. Por que as pessoas foram mais amenas desta vez? Confiança no Tite? Dó do menino Ney? Não, acho que não. Culpa do 7 X 1 da Copa passada. Depois de um sapeco daqueles, perder por pouco da Bélgica até que não está tão ruim assim.

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E assim a Copa vai chegando ao seu fim. Hora de voltar os holofotes para o segundo semestre, que promete ser tétrico.

Volta, Copa!

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