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Convite raro da ordenação de José Carlos Castanho

Artigo escrito por Vanderlei Testa, jornalista e publicitário
Convite raro da ordenação de José Carlos Castanho
Crédito da foto: VT / JCS / Família Testa

Vanderlei Testa

Tenho em mãos um convite raro datado de novembro de 1953. Está novo, guardado com muito carinho pelos meus pais durante mais de 50 anos e por mim até hoje, há 67 anos.

Há uma história humana e espiritual em cada palavra citada no impresso. José Carlos Castanho de Almeida é o personagem principal do convite. Ele foi entregar na casa que meus pais moravam na rua Santa Maria.

Foi no mês de outubro que um jovem com seus 23 anos de idade, morador da rua Manoel Lopes 103, a uns 200 metros de casa, apareceu com o convite para em um gesto de gratidão avisar da sua ordenação sacerdotal. Até então, José Carlos era diácono.

Quando meus pais eram vivos, eu gostava de perguntar sobre as pessoas que marcaram as suas vidas com amizade e respeito. Uma delas era a família Castanho. Minha mãe dizia que os pais do José Carlos Castanho, Accácio e Joanna, tinham uma fé e devoção admirável em Nossa Senhora e a ela dedicaram à vida religiosa do filho.

Desde menino o Castanho gostava de ir à igreja e as missas, talvez influenciado pelo seu tio padre. O tio, Monsenhor Castanho de Almeida, um sacerdote iluminado pelas suas pregações que atraíam grande número de fiéis.

A cidade de nascimento de ambos: Guareí. Monsenhor Castanho (Aluísio de Almeida, se tornou historiador emérito do Brasil, escrevendo em seu casarão da rua Rui Barbosa).

Retornando à história do José Carlos Castanho de Almeida. Como ele era magro e de baixa estatura, seus pais mandavam à minha mãe, costureira na época do início dos anos 50, para que tirasse as medidas e produzisse as camisas e calças que o filho usaria no Seminário Central do Ipiranga, São Paulo e na Universidade de Mogi das Cruzes, onde estudou Teologia na Faculdade NS da Assunção.

Durante anos o José Carlos passava em minha casa para experimentar as roupas, sempre passadinhas no ferro a vapor de minha mãe. Lá no inicio da nossa prosa contei da amizade com gratidão.

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Pois é essa palavra na prática que aconteceu, segundo contava a minha mãe, a simplicidade e humildade daquele jovem seminarista que ia receber a unção do sacerdócio ao levar o convite. O seu abraço em meus pais foi de um gesto que marcou as melhores lembranças dos 93 anos da dona Carmela e 86 anos do seu Ernesto, como ele, Castanho, os chamavam.

A emoção do José Carlos Castanho ao ler aos meus pais o texto do convite ficou na memória deles. Sinto o mesmo agora ao escrever este artigo, com arrepio de sentimentos em pensar nos meus pais e no Castanho, naquele outubro de 1953 na sala de casa: “Com a graça de Deus, venho comunicar que pela misericórdia de Nosso Senhor, serei ordenado sacerdote por dom José Carlos de Aguirre na Catedral de Sorocaba às 9h30 do dia 8 de dezembro.

Comunico-lhe, igualmente que no dia seguinte, às 7h celebrarei Missa Nova na Igreja do Senhor Bom Jesus dos Aflitos dos padres Franciscanos. No dia 13 de dezembro, às 10h cantarei Missa Solene em Guareí, minha terra Natal.

Para estes tocantes atos, com prazer convido, pedindo orações pelo meu sacerdócio eterno”. Assinado Diácono José Carlos Castanho de Almeida.

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Depois da missa de ordenação, o agora neossacerdote chamado de padre Castanho pela comunidade, seguiu sua vocação. Foi pároco da Catedral de Nossa Senhora da Ponte, Vigário Geral da Diocese de Sorocaba, Diretor Espiritual do Seminário Diocesano de São Carlos Borromeu e Assistente de Equipes de Nossa Senhora.

Também se formou em Direito pela Faculdade de Sorocaba. Seus estudos e dedicação aliada à sabedoria divina que o Espírito Santo conduzia sua vida, o levou a ser chamado para ser Bispo Auxiliar de Santos em 2 de maio de 1982 pela unção do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. Posteriormente foi nomeado Bispo Diocesano.

Um dia em viagem com um grupo de casais amigos no estado de Goiás, encontramos o bispo Dom Castanho em Itumbiara conduzindo a diocese local. Em Araçatuba foi servir como o primeiro Bispo na diocese de 1994 até 2003. Aquele jovem seminarista, diácono, padre e bispo, viu o tempo passar numa entrega total a Deus conforme previu no seu convite de ordenação ao escrever: “pelo meu sacerdócio eterno”.

E assim foi em 50 anos de sacerdócio, até que pela idade exigida pelas leis canônicas, se tornou Bispo Emérito em setembro de 2003 e deixou a Diocese de Araçatuba para se dedicar a Sorocaba, como celebrante de missa diária na Catedral Metropolitana, auxiliando o padre Tadeu e na Igreja de São Carlos Borromeu, ao padre João Carlos Orsi.

Sou amigo do dom Castanho. Participei de muitos retiros e encontros com a sua presença sempre ungida em ensinar a Palavra de Deus. Convivi com seu irmão João Batista Castanho durante 15 anos, enquanto trabalhava na Siderúrgica Aparecida.

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Na maioria das inaugurações e celebrações que existiam na metalúrgica o dom Castanho se fazia presente como convidado do presidente Luiz Pinto Thomaz a dar as bênçãos nos equipamentos e trabalhadores.

Sua história de 89 anos de idade, quando completará no dia 14 de junho, as nove décadas de existência, jamais será esquecida por muitas gerações de sorocabanos e guareíenses, que reverenciam o tio e o sobrinho, sacerdotes, como diz a leitura sagrada da Carta de São Paulo aos Hebreus: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”.

Hoje, vivendo com a família em Sorocaba, dom José Carlos Castanho de Almeida, por enfermidade, não mais está celebrando nas igrejas e passa os seus dias meditando e ouvindo ao coração o que Deus preparou para ele na vida eterna.

Aquele menino que ia à Igreja do Bom Jesus dos Aflitos na sua infância para fazer a primeira Eucaristia e seguir o caminho do chamado ao seminário, sob a orientação de dom José Carlos de Aguirre, chegará aos seus 90 anos de idade abençoado e feliz de ter sido vocacionado a servir ao próximo.

Dom Castanho cumpriu à risca, como o seu mestre Jesus ensinou a pastorear as ovelhas. Talvez por isso, o Diácono Castanho escolheu para ilustrar a capa do seu convite à imagem que reproduzimos neste artigo.

Vanderlei Testa jornalista e publicitário escreve quinzenalmente às terças-feiras no Jornal Cruzeiro do Sul e aos sábados no www.facebook.com/artigosdovanderleitesta e www.blogvanderleitesta.com

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