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As janelas

Neusa Gatto

A vida ali transcorria como numa cidade pequena. Todos da rua se conheciam. A família do libanês que abrira uma loja como extensão da própria casa. O português que agora tinha uma quitanda. Uma bagunça só. Galinhas em engradados na entrada. Frutas, verduras e legumes num espaço pequeno onde era quase impossível manter a limpeza. Os cachos de bananas expostos na escadaria da frente. O turco que tinha o açougue onde se comprava com a quantidade de dinheiro que se tinha. Nada de quilo, meio quilo ou um quarto. Era tantos cruzeiros de carne moída ou músculo pra sopa…

A padaria de uns italianos que aceitavam caderneta. Tudo anotado. Conferido em casa a cada compra. E religiosamente pago no fim do mês. Com direito a brinde. Um pão doce com creme. Ou com coco. Alegria pra criançada da casa.

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E, assim, a vida ia na rua. De terra. Ainda sem esgoto.

E, um dia ela chegou. Do interior. Cabocla mesmo. Casara com o filho da portuguesa braba da rua. Aquela que, diziam, era espírita. Como poucos conheciam a filosofia religiosa, medo tinham da velha portuga. Assim, nada de se meter com ela.

E não é que a nova moradora caiu no agrado da vizinhança? Caipira, é certo, daquelas que mal sabiam escrever o nome. Mas, esperta. Trabalhadeira, como diziam. Encontrara a casa em petição de miséria. Nem piso no chão havia. Móveis e utensílios daquele jeito. Desculpava, a velha portuguesa que, pela idade, não atentava pra essas coisas. Então, mãos à obra. Arrumou emprego como operária numa fábrica. Seu primeiro salário foi pra cimentar a cozinha. Com vermelhão, aquele piso antigo que se usava antigamente. Até a sogra reconheceu ali um benefício. Com um muxoxo, verdade, mas gostou. E, assim, aos poucos, a casa se pôs a mudar.

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O marido pouco se importava com o que a mulher fizesse. Pra desespero da mãe, que achava por demais prepotente as atitudes da nora.

Tratava de se esquivar das discussões mais acaloradas. No bar, no bilhar, nas cervejas com os amigos, lá ficava ele. Fora dos conflitos. E, então nasceu o primeiro filho. Depois, as filhas. E a casa, cada vez a aumentar mais. Novos quartos. Banheiro melhor. Até que a guerra começou. E justo por causa das janelas da frente. Feias. Velhas. Descascadas. Hora de mudar.

— De jeito nenhum, vociferou a velha portuguesa. Na minha janela ninguém mexe. Muito bem. Respeitou-se sua vontade. E, apenas uma delas foi trocada. A outra, escangalhada, ali ficou. Por anos e anos, a casa exibiu uma arquitetura estranha. Nova de um lado e envelhecida do outro. Até que, um dia, as folhas de madeira da veneziana foram ao chão. O tempo e os cupins, botaram fim ao impasse. Se incumbiram de resolver o problema.

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Neusa Gatto é jornalista e produtora de vídeos.

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