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Balada do louco

Confira o artigo de Leandro Karnal, articulista da Agência Estado

Leandro Karnal

É o mais sólido e tradicional clichê que somos todos, em algum grau, loucos. Como a maioria é algo estranha, ser louco conteria um certo charme. O glamour da insanidade aparece na belíssima “Balada do louco”: “Mais louco é quem me diz, e não é feliz…”, dos Mutantes, que ganhou registros com Ney Matogrosso, Rita Lee e Cida Moreira. A normalidade é tediosa, opressiva e até pecaminosa, algo que ecoa Erasmo de Roterdã (“O elogio da loucura”) ou Paulo Apóstolo (I Coríntios 4,10).

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O sonho da contracultura articula-se com a postura de considerar que a vida enquadrada é “careta”, antiga, ultrapassada e você, cumprindo todo o trajeto da “normalidade”, acaba apenas servindo de massa de manobra. A sinceridade dos loucos e outsiders sempre foi admirada como emanação de algum acesso a um conhecimento superior. Não seja mais um tijolo no muro, não marche para a mesmice: é o tema recomendado do clássico “The wall”, de Pink Floyd. Um jovem que não tenha sido seduzido em algum momento pela ideia da insanidade contestadora de um Hamlet a apontar coisas podres no reino da Dinamarca, provavelmente, não é um jovem de verdade. Hoje quase uma denúncia de idade, lembro de um livro clássico da minha juventude: “O louco”, de Khalil Gibran.

Narrei a loucura poética. Ela é irmã da contestação, da rebeldia criativa, da insubordinação contra poderes. O louco manso e criativo ri, diz aquilo que está engasgado na garganta dos comuns racionais e infelizes. A poesia-hino do levante contra o tradicional é o famoso “Cântico Negro”, de José Régio. Sim, a plateia ralou no emprego para obter a soma do ingresso, seguiu ordenadamente até o lugar numerado, chegou no horário previsto, arrumou-se para isso e seguiu organizada e racional. De repente, a genial artista recita o cântico e todos apoiam e gritam. Era o momento permitido de rebeldia. Depois, em ordem e pagando estacionamentos extorsivos, todos voltamos para nossas casas. Para ser muito louco, hoje, precisamos de renda sólida, diferentemente dos filósofos cínicos como Diógenes, que podiam ser pobres e perturbados.

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Tenho temido o crescimento do outro tipo de loucura, aquela amparada na classificação psiquiátrica. Acompanho, com horror, cenas como o perigoso empurrão de uma senhora sobre o padre Marcelo ou o casal de mulheres que tortura e mata um menino: é uma lista infindável de pessoas que não apresentam a loucura risível, todavia a perigosa e assassina. O mesmo Erasmo de Roterdã fazia questão de separar uma loucura espirituosa da fúria, proveniente dos infernos. Crescem as ações perpetradas por pessoas diagnosticadas em alguma página do catálogo médico. Por questões jurídicas, mesmo tendo realizado crimes hediondos ou executado atentados terríveis, por vezes os médicos concluem que são inimputáveis. Por definição, um grau de perturbação mental elevado pode justificar a inimputabilidade, pois a vítima deixa de ter consciência do que faz. Nós que, com sorte, só temos graus leves de insanidade somos perfeitamente passivos de todo o peso da lei, o que não deixa de causar uma injusta indignação em muitos. Em vários sistemas jurídicos do passado, não existiam atenuantes como transtornos psíquicos. Na Idade Média, uma criança poderia ser perfeitamente julgada, torturada e condenada, pois ainda inexistia o conceito de inimputabilidade ou mesmo o conceito de criança. Em tradições como a inglesa, os juízes podem decidir que uma criança de 10 anos, tendo realizado um crime grave, pode ser julgada e até condenada.

O medo social existe sempre. E se um louco me atacar? O que eu posso fazer? Retomando o caso conhecido do padre Marcelo: como evitar o medo de que atos violentos se repitam? Em um ambiente em que tantas pessoas manifestam seus ódios de forma tão polarizada e evidente, em que o rancor aflora de todos os lados em redes sociais, como garantir que os leitores de discursos explosivos sejam pessoas sensatas que saibam que há algo profundamente retórico naquilo tudo?

A loucura dos grandes deve ser vigiada, reflete o rei Cláudio ao pensar nas estranhas ações do jovem Hamlet. E a loucura cotidiana dos pequenos? E o delírio diluído em milhares de pessoas que abastecem seu desvario nas redes? E os seres “normais”, tranquilos, trabalhadores e pontuais que, dirigindo um automóvel privado, moto, táxi, ônibus ou patinete, agem como se fossem Átila e pisoteiam/rodam um solo sobre o qual nem a grama ou a civilização crescerá de novo? Que outros continentes de loucura no oceano da razão descobriremos como o Alienista criado por Machado de Assis?

Que tempos felizes eram aqueles nos quais os romanos identificavam em Calígula, Nero ou Heliogábalo a insanidade clara e passível de eliminação! Que época abençoada: havia um louco e ele morria e pronto, o mundo melhorava… outra era. O rei George III da Inglaterra e D. Maria I de Portugal foram atacados de insanidade e tiveram o mesmo médico, por sinal. A loucura do governante britânico não impediu a decolagem do poder inglês no século 19. A demência da avó de D. Pedro I não deteve o declínio português. Parafraseando o coveiro de Hamlet, enviaram D. Maria I, louca, para o Brasil. Aqui se curaria e, se tal não ocorresse, poucos notariam a diferença. D. Maria gritava dos janelões do convento do Carmo no Rio de Janeiro. Ninguém a ouvia. Os gritos dos loucos, no Brasil, raramente superam os da “gente de bem”. É preciso ter esperança e, talvez, alguma sanidade. Enquanto for possível.

Leandro Karnal é articulista da Agência Estado.

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