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A Reconciliação

José Milton Castan Jr.

O som eletrônico do despertador invadiu seus ouvidos, trazendo-o de volta ao mundo.

Conferiu a hora: Seis da manhã. Sem vontade afastou o lençol para o lado, sentou-se na cama com o cuidado, e aquela dor no peito de ontem ainda persistia. Tentou espreguiçar. Percebeu um cheiro rançoso no ar, um tanto agridoce. Deu uma profunda inspirada e sentiu enjoo.

Pensou: “essa rotina tá me matando!”

Vandir levanta-se todos os dias sempre às seis horas! Mecanicamente lavou o rosto, escovou os dentes e fez a barba. Voltou para o quarto vestiu calça, camisa, meia e antes de calçar o sapato deu uma espiadela no relógio, mas estranhou a hora, pois ainda marcava seis horas. Surpreso se perguntou como pode um despertador digital parar de funcionar? Achou que o visor mostrava a hora programada de despertar.

Vandir tinha uma virtude: era pontual. Capaz de calcular com a precisão de minutos a hora de chegada a qualquer lugar. Gabava-se de jamais haver perdido um horário de partida de avião, ônibus, etc. Não chegava atrasado a nenhum compromisso. Com rotina bem definida não se incomodou em checar a hora. Pronto para o trabalho, saiu. Bateu a porta de casa, entrou no carro e partiu. No entanto o azedume no ar agora parecia mais cheiro de enxofre. Apalpou o peito e aquela dorzinha aguda.

Achou esquisito quando olhou para o relógio do painel do carro que marcava as mesmas seis horas. Buscou o celular no banco e surpreso encontrou a mesma hora. Parecia que o tempo havia parado às seis horas da manhã. E este instante de distração acabou-lhe custando caro, pois mal levantou os olhos e teve que frear bruscamente, os pneus travaram, parou a milímetros do carro da frente e não teve tempo de mais nada pois escutou enorme estrondo vindo de trás. O impacto jogou sua cabeça pra frente. Soltou o cinto de segurança, desceu estonteado e viu o tamanho do estrago, pois seu carro estava entalado entre um caminhão enfurnado em sua traseira e o carro da frente. Com o choque, o caminhão havia feito desaparecer para-choque, lanternas e tudo mais que se chamava traseira de carro. Sentiu seu peito doer ainda mais. Talvez fosse a pressão sofrida na batida. O motorista do caminhão desce assustado e para surpresa de ambos o motorista do caminhão era o pai de Vandir.

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Caro leitor preciso trazer para dentro desta história algo que poucos sabiam:

Vandir filho não encontrava Vandir pai há muito tempo. Foi uma briga que deixou marcas para todos os lados. Não carece montar os pormenores, pois toda discussão é sempre igual: cada qual acha a sua razão, e pronto… lá se foram doze anos.

Quando Vandir filho viu que o motorista do caminhão era seu pai, um turbilhão de sensações invadiu o seu corpo: um misto de surpresa, raiva, tristeza e por fim uma alegria que há muito não sentia. Esquece o prejuízo da batida e imediatamente descobre o quanto esperava esse momento. A alegria foi crescendo e num impulso quis abraçar e beijar seu pai até que… até que ao fundo escutou seis badaladas. E aquele cheiro agridoce transformando-se em cheiro de enxofre.

Turvada, a cena toda ia lentamente desmanchando-se, desaparecendo…

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Vandir escutava agora não um sino, mas um milhão de sinos batendo seis vezes e parando, para logo voltarem bater mais seis vezes. A dor no peito aumentando.

Não sabia que horas eram, mas teve certeza era madrugada, e tudo não passava de um sonho. E ainda sob as cobertas de sua cama esboçou um leve e alegre sorriso, e meio dormindo pensou: amanhã cedo vou procurar meu pai, dar-lhe enorme abraço e o beijo que estava perdido há muito tempo.

Esperava o despertador acordá-lo.

O tempo foi passando, passando… e o despertador não tocava! E aquele cheiro de enxofre, aquela dor no peito…

E o despertador de Vandir nunca mais tocou.
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor – www.psicastan.com.br

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