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A primavera troglodita II

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e articulista da Agência Estado
A primavera troglodita II
Crédito da foto: Reprodução

Leandro Karnal

Na semana passada, tratei da emersão de uma fala grosseira como típica de uma vontade de agradar a eleitores “comuns” e de liberdade diante dos códigos da boa educação. Queria ir além.

A etiqueta foi (como lembram Norbert Elias e Renato Janine Ribeiro) uma maneira de dizer quem é quem, preservar distinções sociais e criar o repertório de falas e gestos. Mais do que destacar o perfeito aristocrata, servia para afastar o arrivista e o de baixa extração social. Etiqueta era uma barreira social.

A primavera troglodita é uma rebelião com alguma justiça, eu lembrava, contra o cinismo educado de certos políticos e contra o artificialismo esnobe de alguns imitadores das cortes. Porém, existe uma fantasia a superar: o grosseiro seria autêntico.

A pessoa muito formal faz de tudo para esconder o que sente. Faz parte, por exemplo, do eixo da etiqueta japonesa: não constranger alguém com suas dores pessoais. No fundo, as regras assim entendidas funcionam como papéis sociais que impedem que você seja visto ou veja o outro. Da mesma forma, dizer a sua anfitrioa que o prato está péssimo é não ver o esforço ou a intenção de quem cozinhou. O foco do jantar não foi obter uma estrela Michelin, mas ser atencioso e afetivo com os convidados. A intenção benigna, bem o sei, nem sempre vem acompanhada do talento gastronômico. Ao olhar para alguém que realmente tentou fazer algo bom, cabe-me ver essa pessoa, entender que ali estava um carinho que agora está visível na travessa. Assim, insultar a dona da casa é não ver e ser tão cego quanto quem mente efusivamente pela frente e depois critica pelas costas. O oposto da grosseria não é a afetação aristocrática, todavia o afeto. Ver, de fato, é o grande objetivo de uma sociabilidade saudável. O grosseiro e a dama afetada são, ambos, escravos de um eu que não negocia nada ou tudo cede em nome do egoísmo. Assim, da mesma forma, o oposto do político falso de sorrisos eleitoreiros não é o cavalo tosco que dispara coices, contudo o homem sensível às pessoas, todas elas, sejam filhos ou repórteres. A antiga etiqueta parecia emascular os homens da corte. O novo troglodita parece hipertrofiar a toxicidade de uma leitura do masculino. Ser homem não é ser direto e ser educado não é ser falso. Ser homem ou ser mulher seria tentar, sempre, avaliar as pessoas com compaixão e solidariedade, sem abrir mão dos seus princípios, sem passar por cima como um trator e sem colocar almofadas de seda educadas que ocultam víboras linguísticas pelas costas.

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Hoje, mais do que nunca, meninos e meninas devem ser educados a pensar no outro ao falar, a não se esconder atrás de medos e inseguranças, a ser gentis na medida do possível. Se necessitarem de mais energia na fala ou na ação, que seja porque estão defendendo uma situação-limite que pode representar risco a si ou para os outros. Acima de tudo, urge reforçar que gentileza não é fraqueza, porém ser protagonista da cena e trabalhar com o melhor de si e estimular o aperfeiçoamento dos outros.

A cultura tóxica de “lacrar” ou de “não levar desaforo para casa” é ruim, fraca, evidencia insegurança e, nos dias de hoje, muito perigosa. Foi reforçada pela própria situação de proteção que o insulto via internet adquiriu. São os “machões com avatar” (insisto, a praga atinge homens e mulheres). Ali, protegidos no seu quarto, esses novos trogloditas são audazes e atacam qualquer tribo rival. Machos de digitação (de novo, mulheres também) incapazes de sair das suas tumbas virtuais, sempre fugindo da luz, sempre covardes, sempre fracos e impotentes.

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Norma para evitar esse espocar de grosserias: você não precisa fazer falsos elogios se não desejar, mas é obrigatório ver seu interlocutor. Clovis de Barros Filho escreveu o livro “Shinsetsu – o poder da gentileza” (Ed. Planeta) e discorreu de forma linda sobre os benefícios de trabalhar o conceito de gentileza. Declaro aqui, publicamente, minha admiração profunda pelo amigo e filósofo da Unicamp: Oswaldo Giacóia Jr., cuja gentileza é meu modelo e minha vontade permanente de superar meus monstrinhos interiores inseguros e grosseiros. Seu trato com a esposa e com a filha e seu convívio com alunos e colegas são uma aula direta de como o mundo seria melhor se eu e todos os seres que lutam contra sua própria grosseria pudéssemos crescer.

Não foram necessários muitos anos de psicanálise para eu perceber que minha irritação profunda com gente grosseira é eco do controle semieficaz que faço da minha própria agressividade. Sim, muitas vezes e para imenso desgosto meu, fui mal-educado com pessoas queridas ou desconhecidas. Em condições normais de temperatura e pressão, eu sou um bem-trabalhado lorde. Sob muita pressão, com calor ou fome, doente ou contrariado, aflora um Neandertal sem travas. A idade, as leituras, as longas sessões no divã ajudaram a melhorar, um pouco, ao menos. Escrevi esses artigos para que todos, eu em primeiro lugar, continuemos olhando para as pessoas, que sejamos menos inseguros, que lutemos mais contra nosso egoísmo e contra o pequeno autoritário mimado que mora, confortável, no fundo de tantos espíritos. Controlar-se não é reprimir-se, mas evitar que o recalcado lhe controle. Só é livre, de verdade, quem é gentil. Boa semana para todos os bem-educados. São Giacóia, rogai por nós.

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Leandro Karnal é historiador e articulista da Agência Estado.

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