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A morte eterna

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e articulista da Agência Estado
A morte eterna
Crédito da foto: Tom Pennington / Getty Images / AFP

Leandro Karnal

Em fevereiro de 1920, há exatos 100 anos, o Partido dos Trabalhadores Alemães (Deutsche Arbeiterpartei, DAP) virava o partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, NSDAP). Crescia a liderança de Adolf Hitler no grupelho. O bizarro núcleo de associados olhava com medo e desconfiança o aumento da crise alemã desde a derrota na Grande Guerra. O risco de um golpe de esquerda, o desemprego, a humilhação nacional no conflito de 1914-1918 e os sonhos messiânicos de uma Alemanha forte outra vez animavam aqueles seres que se reuniam em cervejarias.

As ideias eram variadas e os membros tinham um espectro amplo. Porém, o que unia todos era o nacionalismo, o discurso antidemocrático e antiliberal, o caráter anticomunista e, acima de tudo, um entranhado e sólido antissemitismo.

O antissemitismo germânico, infelizmente, não existia de forma isolada. Havia teóricos mais organizados na França republicana ou na Rússia. Massacres de judeus eram rotineiros nos territórios vizinhos do czar em pleno início do século 20.

Nos Estados Unidos, da mesma forma, vicejava uma vasta onda de ataque. Também lembramos, em 2020, o centenário da infame obra de Henry Ford, o magnata dos automóveis: “O Judeu Internacional”. O pensamento do empresário seria bem recebido do outro lado do Atlântico: Ford foi condecorado pelos nazistas com a mais destacada honra para um estrangeiro: a Grande Cruz da Águia Alemã. Nos EUA e no resto do mundo havia apoio a “melhorias raciais”.

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O discurso contra os judeus apresenta raízes históricas muito antigas, porém foram os doentes mentais as vítimas de práticas agressivas nas democracias e na Alemanha nazista. O antissemitismo e a eugenia contra “fracos” unificavam o ódio nas ditaduras e nas democracias.

O nazismo é um traço terrível da história mundial. Da mesma forma, outros estados totalitários, como o stalinista, mostram que a opressão absoluta e criminosa não é um acidente. O que mais incomoda em todo caso, é a permanência de adoradores da barbárie.

O caso recente com o ex-secretário Roberto Alvim é emblemático. A demência é uma hipótese confortadora, porque implica inserir o nazismo no quadro das perturbações cerebrais. Seria bom se todo nazista do passado ou todo simpatizante do presente fosse um caso de disfunção. Infelizmente, a realidade é outra. O “mal banal” de Hannah Arendt, a “psicologia de massas” de Reich, a amnésia seletiva de “Cidade sem passado” (Das schreckliche Mädchen, 1990, Michael Verhoeven), o pungente texto de Primo Levi (“É isto um Homem”) são alguns elos para entender o fenômeno mais além do delírio. O nazismo contém uma vontade de controle, um sentido de missão, uma violência unificadora de grupos e uma catarse social muito além da simples idiotice individual.

Nós, humanos, carregamos dores imensas, ressentimentos, preconceitos, análises rasas em muitos campos, cegueiras, memórias deformadas sobre nós e nosso papel no mundo, questões sexuais problemáticas, ódios familiares mal disfarçados, confusões internas, angústias e todos os males que a caixa de Pandora ainda puder conter. Faz parte da nossa constituição psíquica um fluxo expressivo de pulsão de morte, no sentido técnico da expressão freudiana e no mais amplo e metafórico alcance do termo. O nazismo consegue pegar toda essa dor e dirigi-la a um foco. Cria um eu ideal, inexistente na prática, o ariano puro (pode ser o militante, o cidadão de bem) e um inimigo perfeito, o judeu (ou a feminista, ou o conservador, etc ). Todo o bem flui de um e todo o mal de outro. Você é fraco intelectualmente? Basta repetir slogans e, pela insistência e pela câmara de eco do comício (ou do grupo de WhatsApp) você passa a pensar que aquela ideia tênue e rasa é compartilhada por outros e, de repente, uma coisa sem nexo ou base vira um clichê coletivo.

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A sedução do nazismo (ou do stalinismo, ou da ortodoxia religiosa fundamentalista ou de qualquer pensamento que elimina a crítica ou o contraditório) é sempre a mesma: alça a cargos e ao microfone gente ruim, medíocre, fraca e que ganha o poder por força da circunstância. Essa gente encarna a morte que não queremos ver em nós, mas desejamos atribuir a outros. Exorciza insignificância por mostrar outro ser comum (como o Führer) repetindo o que eu sempre desconfiava na minha escuridão interna.

O nazismo é a morte permanente porque continua seduzindo pessoas, provocando estéticas, estimulando vídeos que ainda fazem referências ao caráter assassino, violento e autoritário do processo. O nazismo já seria execrável para sempre pelos 6 milhões de judeus mortos e por outras vítimas como os dissidentes, comunistas, gays, Testemunhas de Jeová, comunidades Roma e Sinti e tantos outros. Só existia uma opção, ser ou parecer aderir ao modelo que o famigerado Goebbels defendia: integrar-se à cultura única ou desaparecer.

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Milhões morreram por essa sedução tétrica de poder e de distopia destruidora de pureza. Isso já seria trágico. Que alguém ainda se deixe seduzir por tais ideais é ainda mais assustador. Cem anos do partido nazista e uma eternidade insuportável de sedução pela morte. É preciso ter muita, muita, muita esperança para sair da sedução do mal. Ele é banal e pode ocupar cargos.

Leandro Karnal é historiador e articulista da Agência Estado.

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