A morte de Bertoleza ainda choca?

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Crédito da foto: Reprodução / Internet

Leandro Karnal

A República ainda era jovem. O público se escandalizou com a obra “O Cortiço”. Aluísio Azevedo viu a capital ser preenchida por cortiços com ondas de imigrantes europeus e negros sem perspectivas após a abolição. O texto da obra retrocede uns anos, em plena vigência da mão de obra servil.

Tudo, ali, é transgressão para escandalizar a burguesia, ou, como se dizia na ocasião: épater la bourgeoisie. Os tipos são, quase todos, escroques. João Romão rouba, engana, mente e cresce seu patrimônio à sombra do invejado comendador Miranda. Coloca água no vinho, surrupia material de construção e explora a mão de obra gratuita de uma fugitiva negra: Bertoleza.

Os trópicos contaminam as pessoas e diluem normas sexuais. Pombinha e Albino são exemplares de como a rígida moral de gênero estava sendo criticada. Jerônimo, de forte trabalhador lusitano, vai sendo transformado em adúltero preguiçoso.

Rita Baiana é um arquétipo da sedutora. O autor maranhense atacou todas as normas e convenções. Queria fazer um retrato sem retoques. Continua chocando há 130 anos.

Na escola, a leitura do Realismo e do Naturalismo era uma surpresa para nós. Fiquei estarrecido, na adolescência, pelo Cortiço. Peguei “O Ateneu” dos livros do meu pai e também me espantei. O Sérgio de Raul Pompeia deveria conhecer o Albino de Azevedo, pensei.

Da biblioteca pública peguei o romance “A Carne”, e Lenita não saía mais da minha cabeça. Só li “O Mulato”, “Casa de Pensão” e “A Normalista” como adulto. Há alguns anos, escutei a narração do “Bom-Crioulo” (Caminha) em audiolivro. Refleti, com sorriso irônico, como todos os textos que tinham me impressionado aos 15 anos eram, agora, narrativas leves.

Porém, é curioso supor que o romântico José de Alencar, um homem conservador, coloca uma mulher, Aurélia, comprando o marido e jogando na cara que ele era um objeto. A cena é tão chocante quanto muitas cenas do Naturalismo, porém, em chave romântica.

Ao final do livro “Senhora”, Aurélia se reconcilia com Fernando. O amor sempre vence: pode ser o de João Romão pelo prestígio social e dinheiro (“O Cortiço”); o de Amaro por Aleixo (“Bom-Crioulo”) ou o de Aurélia pelo antigo namorado interesseiro (“Senhora”). O amor sempre vence, resta saber onde está nosso afeto.

Um adolescente deve ler essas obras? Já me fizeram essa pergunta. Há 40 anos, ela ainda seria um debate curioso. Hoje, com o acesso à rede mundial, toda e qualquer censura parece ainda mais ridícula. O jovem de classe média passa, a caminho da escola, pela visão de travestis trabalhando em plena manhã em área nobre.

Que trecho de Aluísio Azevedo ou Adolfo Caminha conseguiria mostrar com maior crueza o imperativo do desejo? Eu soube da possibilidade de uma greve pelo livro “O Germinal”, de Émile Zola. Eu imaginava os trabalhadores da região francesa. Um jovem com acesso a livros vê as cenas em um livro de fotos de Sebastião Salgado.

Os autores do século 19 queriam eviscerar a sociedade, mostrar seus intestinos, escandalizar para que a elite, cega para os desmazelos sociais, pudesse olhar o mundo como ele era e não como se supunha ser. Hoje, creio, estamos imersos em tripas. São tantas e tão onipresentes que não sei o que chocaria um jovem de 18 anos.

Volto ao meu título. A Bertoleza do Cortiço trabalhou muito como quituteira. Tornou-se amante do avarento Romão. Quando imaginou que estava livre e teria alguma recompensa, foi traída.

O amante-patrão a ameaçou com a volta à escravidão. Nada daria. Já a tinha usado. Ao perceber que perderia tudo, Bertoleza se matou em uma descrição que, até hoje, povoa minha memória. Isso impressionava minha geração.

Hoje, ligamos a televisão e há um policial norte-americano com o joelho no pescoço de um negro ou seguranças de um supermercado matando outro ao vivo e em cores. Os jovens inundados por este novo hiper-realismo ainda ficariam espantados com a morte da dedicada Bertoleza?

Acho que estou idealizando uma época em que existia um sentimento a ser chocado. Existia um jardim intacto que um autor malicioso poderia invadir com uma descrição crua e nos fazer temer ou desejar um outro estágio de percepção. Temíamos e tremíamos como um Adão e Eva surpreendidos pela voz de Deus. Os textos eróticos nos faziam supor coisas inacreditáveis. Haverá ainda uma burguesia a ser chocada? Existirá um pudor intocado, uma neve não pisada ou um gemido nunca exalado?

Existiria algo melhor nos leitores de 2021? Os mesmos jovens, nós, que ficávamos impressionados pelos espasmos de Lenita em “A Carne”, éramos, igualmente, imersos em preconceitos de toda espécie. Se esta geração não se chocar mais com o desejo erótico e continuar se chocando com pessoas sendo mortas por agentes de segurança, eu terei um pouco mais de esperança. E, claro, minha maior esperança de professor é que todos continuem lendo muito. Boa semana aos chocados e aos habituados.

Leandro Karnal é historiador e escritor.