A idade da língua

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Crédito da foto: Reprodução / Internet

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Leandro Karnal

Você sabe que, mais do que rugas ou falta de cabelos, sua fala traz seu ano de nascimento à tona. Entenda fala em sentido amplo. Manda mensagens no celular e coloca acentos ou vírgulas? Escreve muito e abrevia pouco? Não usa figurinhas? Provavelmente, como eu, você viu, emocionado, diante de um televisor preto e branco, o homem chegar à Lua, em 1969.

Existem as coisas óbvias e que já observei por aqui: “Caiu a ficha? Vira o disco!”; tudo indica pouco colágeno. Usa expressões como “dondoca”, “de lascar”, “fulana é uma dondoca”? Nem precisa mostrar sua carteira de identidade, sei que ela é bem antiga. Claro, entre os “experientes” existem ainda abismos cronológicos. Há uma geração inteira entre “balacobaco” e “putz, grila”. Distingamos gente de idade e aqueles de muita idade, claro. Meu pai chamava o blazer de “fatiota”.

Minha tia Shirley perguntava por que eu estava “borocoxô” quando me via triste. Minha orientadora soltava um “bicho” de quando em vez. São ecos de um português com outra marca de carbono 14. Uns viram aparecer Woodstock já adultos, outros desejaram ir para lá na juventude e, por fim, alguns nunca ouviram falar do festival. Cada um com a sua “patota”.

Não está entendendo “patavinas”? Não fique “grilado”. O tema é “supimpa pra dedéu”. Não e só a gíria ou a maneira de construir uma frase que envelhecem rápido. Consideremos, também, como a gestualidade constitui, em si, documento histórico. A língua é viva. Os termos nascem, crescem e morrem. Estava ouvindo Machado enquanto fazia atividade física. O gênio usa muito a expressão “muita vez”, que, apesar de corretíssima, deixamos de usar assim Estou acostumado com “muitas vezes”. Empaco no singular. Estranho. “A pedra no meio do caminho” mostra que a pavimentação da estrada da língua depende de usuários diferentes a cada momento. Antes de a Terra assumir sua atual forma plana, ela era bem esférica e rolava em alta velocidade. A língua acompanhava a velocidade da mudança.

Meu pai usava “senhorita, por obséquio”, ao chegar a um balcão onde uma jovem atendia. O termo ficou politicamente incorreto. Expressões em francês são sinais de idade. A anglofonia invadiu e massacrou a população anterior da cidadela. Quem ainda suporia que uma casa duvidosa moralmente pudesse ser um estabelecimento de “rendez-vous”?

Vamos para o campo das moradias. Alguém ainda sonha com uma “casa geminada”? Oswald de Andrade teria, hoje, uma quitinete ou uma “garçonnière”? Alguém ainda compraria um “JK” como investimento imobiliário? Em que momento espaços minúsculos foram tomados pela elegante palavra “studio”? Se tudo for apertado e o teto subir um pouco, teremos um “loft”... A criatividade do mercado imobiliário é uma constante universal.

Quase todas as pessoas mais velhas acham que o uso da língua portuguesa está em decadência. Ouvia isso dos meus professores há 40 anos: “Os jovens de hoje falam de forma errada!”. A reclamação é tão constante que podemos deduzir que o declínio tem origem no Paleolítico.

Eu comecei afirmando que a língua denunciava nossa idade. Na verdade, ela mostra uma visão de mundo específica de cada geração. Os jovens não falam “pio”. As orações subordinadas desapareceram na fala e fenecem na escrita. O Modo Subjuntivo agoniza (convenhamos que já estava doente quando o estudamos). Se usarmos o Subjuntivo na pessoa Vós, criamos uma peça arqueológica exótica: “que vós partais”; “se vós partísseis”, “quando vós partirdes”. Três formas subjuntivas expressando incerteza gramatical e delírio prático de quem as emprega.

Há, no seu eu mais profundo, um desejo caetânico de sentir sua língua roçar a de Luís de Camões? Não se esqueça de que uma hipotética palestra de Camões no YouTube seria, na prática, incompreensível até para ouvidos versados em prosódias antigas. Quase sempre, tal regra valeria para perfumes do século 18, pratos do século 14 ou hábitos em geral de eras passadas. Tudo tem vida e a estranheza é o abismo do tempo que marca gostos que, ingenuamente, imaginávamos naturais.

O português começou a falar ao mundo com um pequeno nobre, Paio Soares de Taveirós, em algum momento do século 12. Reclamando que nada possuía de dado por sua amada, por menor que fosse, o galego escreveu: “Pois eu, mia senhor, d’alfaia nunca de vós houve nem hei valia d’ua correia!”.

A língua de Paio Soares de Taveirós seria compreendida, com alguma dificuldade, três século depois, por Gil Vicente. Entre o autor da “Farsa de Inês Pereira” e o nosso Machado de Assis, outro abismo de metamorfoses, séculos e de silêncios. Os três citados não conseguiriam ler uma mensagem de WhatsApp, em 2021.

Então, afinal, me perguntam a querida leitora e o estimado leitor, qual a maldita diferença? As distâncias da mudança entre cada um eram cronologicamente amplas. Hoje, provavelmente, você, caro leitor e queridíssima leitora, também não leria muitas mensagens eletrônicas de adolescentes. Entre você e sua filha sardenta, existe um abismo maior do que o verificado entre Gil Vicente e Machado. Há hiatos enormes entre falantes de eras diferentes, mesmo que a outra era tenha sido gerada por você e sua esposa... Console-se lendo mais clássicos, ninguém mais lhe entende... É preciso ter esperança ou um bom emoji...

Leandro Karnal é historiador e escritor.