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A gravidade das hepatites virais crônicas

Confira o artigo de Mário Cândido de Oliveira Gomes

Na atualidade existem sete tipos de hepatites por vírus, cujos nomes vão de A até G. Todavia, pela gravidade, os tipos B e C são os mais importantes. Em nosso País existem milhões de portadores da hepatite B e da C, mas a maioria não exibe sintomas ou apresentam poucos sintomas. Por isso, a quase totalidade desconhece o problema, com a agravante de disseminar os vírus na comunidade. O diagnóstico geralmente é feito durante um check-up ou no ato da doação voluntária de sangue. Os vírus das hepatites B e C são transmitidos por via parenteral (sangue e derivados, sexo, etc), e o tipo B também pela via transcutânea (picadas, acupuntura, tatuagem, etc), sendo a hepatite B considerada doença sexualmente transmissível.

O diagnóstico precoce é fundamental pela gravidade e dificuldade de tratamento. Com efeito, a hepatite B evolui para a cronicidade em 10% dos casos e a C em 85%. Após lenta evolução (20 a 30 anos). os portadores desenvolvem cirrose hepática (50% na B e 25% na C) ou câncer de fígado (50% na B e 1% a 4% ao ano na C). Tal descoberta também interessa à saúde pública para o controle da epidemia, pois os portadores disseminam os vírus na coletividade. Os testes são oferecidos às pessoas com práticas de risco para as duas infecções, tais como: uso de drogas intravenosas, sexo inseguro (sem preservativo), uso de tatuagem ou piercing. O teste também está indicado para pessoas que utilizam cocaína inalada ou têm história de transfusão de sangue e/ou hemoderivados antes de 1963.

O vírus da hepatite B evolui em 20 a 30 anos para a forma crônica, sendo o diagnóstico laboratorial realizado através de vários marcadores, como: antígeno de superfície (AgHBs), antígeno da estrutura central ou core (AgHBc), antígeno ‘e’ ou (AgHBe) e seus respectivos anticorpos.

Os testes qualitativo e quantitativo são feitos por meio do PCR (reação em cadeia da polimerase). O objetivo do tratamento da hepatite crônica pelo vírus B é paralisar a multiplicação do vírus, uma vez que ele se integra ao DNA do hospedeiro e dificilmente é erradicado pela medicação. Os medicamentos existentes (peg-interferon, lamivudina, etc) têm eficácia global de 20% a 80%. Parece que a perspectiva mais animadora é a combinação de drogas, enquanto a prevenção é realizada com total sucesso por meio da vacinação. Aliás, a vacinação (três doses) é a grande esperança de controle desta grave infecção em todo mundo. Situações específicas, como transmissão vertical, pós-exposição e pós-transplante de fígado, são prevenidas com a associação de vacina e imunoglobulinas.

Em relação à hepatite C foram identificados seis sorotipos do vírus (1 a 6), prevalecendo no Brasil os genótipos 1,2 e 3, com maior resistência do tipo 1 ao tratamento. Infelizmente, a erradicação total do vírus (espontânea ou com tratamento) não parece ocorrer podendo haver recidiva da infecção. O exame inicial para o diagnóstico é a dosagem do anticorpo (anti-VHC). Quando positivo, faz-se o PCR qualitativo, mas, se confirmada a cronicidade, é fundamental a biópsia hepática e o genótipo do vírus. A carga viral tem valor somente para verificar a eficácia da medicação. No tratamento são utilizadas duas drogas interferon-alfa peguilado associado à ribavirina, com respostas positivas em 40% a 80 dos casos.

O grande problema no tratamento desta hepatite é o preço dos medicamentos, mas estão disponíveis na rede pública. Para a hepatite C não existe vacina, sendo a prevenção extremamente difícil. Como se pode observar, as hepatites virais crônicas representam um importante problema de saúde pública em todo o mundo, sendo responsáveis por milhares de mortes e indicações para o transplante de fígado. Também respondem pelo maior número de internações de pacientes com aids.

Artigo extraído do livro Doenças – Conhecer para prevenir (Ottoni Editora), de autoria do médico Mário Cândido de Oliveira Gomes, falecido aos 77 anos, no dia 6 de junho de 2013.

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