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A espada e a vacina

Artigo escrito por Edgard Steffen, escritor e médico pediatra
A espada e a vacina
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Edgard Steffen

Adiantada a vacinação de idosos com idade superior a 90 anos, em Sorocaba

Texto em livro didático (década 30) falava de rei muito poderoso sobre cuja cabeça pendia pesada e afiadíssima espada. A lâmina de nome esquisito — espada de Dâmocles — impedia ao monarca mentir ou tomar decisões erradas. Se o fizesse, teria a cabeça decepada. A narração procurava ensinar o perigo da mentira.

Na internet, você encontra a verdadeira história. A fábula foi escrita por Cícero (45 a. C.). O reino era Siracusa. O monarca tirânico, Dionísio. A lição, finitude da vida. Dâmocles, cortesão que vivia adulando o tirano, associava felicidade ao poder que permitia todos os gostos e desejos. Rei e puxa-saco trocaram, por um dia, posições na corte. Sobre o trono, preso por um fio de rabo de cavalo, o rei mandou colocar a lâmina. Sentado no trono, o bajulador não conseguiu curtiu iguarias servidas em salvas de ouro nem raros vinhos em taças douradas nem se sentiu atraído pelas carícias das/dos jovens que o rodeavam. Passou o dia inteiro preocupado com o frágil fio que segurava a espada. O cortesão percebeu que a felicidade não está na riqueza nem no poder. Bajulações enfeitam, mas não resolvem problemas de ninguém. Do personagem Dionísio ficou somente a lembrança da maldade. Do cortesão permaneceu o nome associado à espada. Da espada de Dâmocles a expressão “por um fio”, até hoje usada para definir situações de morte ou perigo iminente.

Apocalípticos dias trouxeram-me à lembrança a espada presa por um fio. À medida que o novo coronavírus foi se espalhando até atingir status de pandemia, ficou bastante claro que idosos, seguidos pelos portadores de comorbidades (diabetes, obesidade, asma, hipertensão, etc.) são as principais vítimas. Espadas de Dâmocles pairam ameaçadoras sobre os respectivos pescoços. Mas não estávamos nem estamos sozinhos. A subestimada “gripinha” — segundo dirigentes desatentos e deslumbrados sentados no trono do poder — transformou-se em multidão de ameaças sobre os trabalhadores da saúde, da segurança, da limpeza, da educação, dos serviços etc.

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Meu intento era não mais escrever sobre a pandemia. Vacinado, enfim, mudei a ideia.

Estava preparado para horas de sofrimento no trânsito engarrafado e falta de boas informações sobre como chegar ao drive-thru antes que se esgotassem doses destinadas a Sorocaba. Saí de casa às sete e, antes das oito, estava de volta. No bolso, o comprovante de que recebi a Coronavac. A equipe da saúde está de parabéns. Madrugaram para atender os velhinhos. E o fizeram com eficiência. Tudo fluiu conforme o planejado. Não atrapalharam o trânsito dos que nada tinham a ver com a vacinação. Na Afonso Vergueiro, sinalização adequada indicava o rumo a seguir. A cada 10 ou 20 metros, guardas municipais cuidavam para que a fila dos carros dos candidatos à vacinação não atrapalhassem a fluência dos coletivos entrando/saindo do terminal.

O local dos pontos de vacinação não poderia ser melhor. Nem a coordenação. Vacinadores atenciosos, devidamente paramentados, alegres por conscientes da importância de seu trabalho, examinavam documentos, anotavam, vacinavam e entregavam o cartão comprobatório já com a segunda dose agendada.

Até o secretário da Saúde e o prefeito estiveram no estacionamento. Sua presença não aumentou nem diminuiu o rendimento das equipes. Simbolicamente, mostraram que Sorocaba não minimiza o problema da Covid-19. Presentes entre vacinados e vacinadores, simbolizam que espadas de Dâmocles estão sendo tiradas de nossos pescoços e estamos mais perto da liberdade de ir e vir.

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Continuaremos evitando aglomerações, usando máscaras e seguindo orientações da Vigilância Epidemiológica. Mas nossas cansadas retinas vislumbram luz no fim do túnel.

Edgard Steffen é escritor e médico pediatra. E-mail: edgard.steffen@gmail.com

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