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A dor da Mãe

Confira o artigo do articulista da Agência Estado, Leandro Karnal
A dor da Mãe
Crédito da foto: Reprodução / Obra Pietá, De Vicent Van Gogh

Leandro Karnal

Entre os 20 e os 40 anos, quase todos nós enterramos nossos avós. Entre os cinquenta e setenta, assumimos o doloroso dever de acompanhar o funeral de nossos pais. A partir de então, frequentamos exéquias de amigos com a crescente desconfiança de que a fila anda rápido e que nossa vez se aproxima. Isso incomoda, porém, como advertiu o rei Cláudio ao enteado Hamlet, faz parte do ciclo da vida: “Manter-se em obstinado luto é teimosia de ímpia obstinação”.

Talvez fosse mais fácil para Cláudio sair do pesar, afinal, ele era o assassino e o beneficiado da morte do irmão. Há um fato maior do que o fim da vida de avós ou pais: quando a mãe enterra um filho. Como escreveu Chico Buarque na dilacerante canção Pedaço de Mim: A saudade é o revés de um parto; é arrumar o quarto do filho que já morreu.

Nossa Senhora das Dores é a materialização do instante em que a escala de dor chega ao zênite. Pode ser a jovem Maria de Michelangelo ou a angustiada e dramática Maria do filme de Mel Gibson (A Paixão de Cristo, 2004) que, com suas vestes, limpa o sangue da flagelação. Dezenas de autores criaram música para os versos medievais: “Stabat Mater Dolorosa, Juxta Crucem Lacrimosa” (de pé a mãe dolorosa, junto à cruz, lacrimosa). O mais famoso foi Pergolesi, no entanto o tema inspirou o padre Vivaldi, Domenico e Alessandro Scarlatti, Haydn, Schubert e até Poulenc. Eram compositores católicos, claro, mas todos tiveram mãe e a cena só não comove um “filho de chocadeira”.

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A Pietá, Nossa Senhora das Dores, Virgem da Soledade, Maria das Lágrimas: a Mater Dolorosa foi denominada de muitas maneiras. Aleijadinho a faz atravessada por sete espadas, como vemos no Museu de Arte Sacra de São Paulo.

O velho Simeão havia dito (Lc 2, 35), ao ver o bebê, que uma dor aguda trespassaria o coração daquela jovem mãe. Uma espada ou sete (incluem-se aqui as dores de fugir para o Egito, perder-se do Filho aos 12 anos, a flagelação de Jesus, etc.): a imagem é pungente. A maior de todas é o momento que Michelangelo a retratou: com o Filho morto ao colo. Uma maternidade fúnebre acontece: ela é mãe e, como diz a tradição teológica, gerou quem a criou. A mãe agora vê a Vida anunciada (como caminho e verdade) sem sopro vital. O momento pessoalmente terrível e teologicamente dilacerante: quem prometeu salvar todos naquele fim de tarde de véspera de Páscoa estava ali, inerte, ensanguentado, aparentemente sem nenhum poder. Exigia-se de Maria duplo esforço: suportar a dor destrutiva de ter um filho de 33 anos assassinado, o Jesus que ela recebera com surpresa naquele fim de tarde com o anúncio do Arcanjo Gabriel; e a imensa dor divina de ver o Salvador desamparado, sem força, morto, inerte e questionando, com seu cadáver, o poder das promessas feitas. A alma da mãe e a personalidade cristã de Maria estavam sofrendo. A Virgem das Dores cuja festa é hoje, 15 de setembro, é um episódio de deserto, uma provação, uma aguda capacidade de continuar acreditando contra as evidências materiais visíveis.

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Dias mais tarde, já tendo retornado ao mundo dos vivos, Jesus recriminaria Tomé porque só acreditou vendo e louvaria os que podem crer sem ver (Jo 20,29). Crer sem ver é a essência da fé. O ordálio de Maria é ainda mais duro: ela via e sentia o corpo frio do Filho, tocava na morte, e precisava pensar que, dali, surgiria a vida eterna, a água viva do poço da samaritana, o Messias em sua glória, a fonte de redenção. Assim, usando uma construção quase imitativa do grande Padre Vieira: Tomé viu e acreditou, são bem-aventurados os que não viram e ainda assim acreditam e, por fim, torna-se corredentora da espécie humana aquela Virgem que tendo enxergado o contrário do que sua alma indicava continuou firme na fé. Há os que acreditam porque receberam a graça de um milagre e há os extraordinários como Maria que acreditam com todas as negativas ao seu redor. Ela fora a Virgem do Silêncio, a que meditava continuamente nas palavras em seu coração (Lc 2,19). Tendo testemunhado com serenidade as provas positivas da fé com o poder do Filho, agora, no deserto das evidências, na solidão do Gólgota, diante do espaço terrível com Jesus morto ao colo e os cadáveres de dois ladrões ao lado, ela permanece fiel, com dor, crente, com angústia, devota, com absoluta e inatingível capacidade de continuar dizendo sim a um plano que sempre excedeu sua compreensão.

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Não sou um homem de fé, todavia admiro imensamente a cena e seu conteúdo angustiante. Não se trata de religião, porém de humanidade. Como manter convicção em tudo quando o mundo desmorona? Eu, que me abalo quando o encanador se atrasa, que me irrito com um sinal que não abre no trânsito, eu, imerso na minha mediocridade cotidiana e no meu rancor vaidoso, tenho de parar ao entrar na Basílica de São Pedro, olhar para a direita e pensar em Jeremias (Lam 1,12): todos vocês que passam pelo caminho olhem e vejam se há dor maior do que a minha. Não há. Mãe com Filho morto excede tudo. Em dias que tantos acreditam apenas quando recebem graças abundantes, Jeremias, Jó e Maria trazem uma espada aguda para o coração humano: há tantas lições na tragédia como há no júbilo. Existe uma Nossa Senhora da Glória porque houve uma Maria das Dores. É tão difícil entender isso? Talvez por isso não sejamos santos. Boa semana para todos nós.

Leandro Karnal é articulista da Agência Estado.

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