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A alegria do amor

Artigo escrito por dom Julio Endi Akamine, arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Sorocaba

Dom Julio Endi Akamine

O livro do Cântico dos Cânticos é o único livro da Bíblia em que Deus não é mencionado sequer uma vez. Como pode ser o livro preferido dos grandes santos e místicos? Essa pergunta é até fácil de responder: Deus está no livro inteiro, simbolicamente. O noivo, Salomão e o rei são todos símbolos de Deus, e a esposa que Ele escolheu é símbolo da alma, do povo escolhido e da Igreja.

Podemos descrever em prosa o que o Cântico dos Cânticos o faz em poesia? Certamente que não: a poesia tem um poder maior do que a prosa. Além disso, esse livro já foi comentado por grandes santos místicos: S. Bernardo de Claraval, S. João da Cruz, Teresa de Ávila e Santo Tomás de Aquino. Por isso não vou entrar com meu time de terceira divisão para jogar no campo de um de primeira. Ou melhor, vou fazer isso, convidando-o(a), caro(a) leitor(a), a se arriscar comigo. Não vamos vencer, mas ao menos poderemos experimentar o gostinho de entrar nesse gramado.

O Cântico dos Cânticos é chave para a Bíblia. A Sagrada Escritura é um livro sobre a vida real, e seu tema é o amor. A Bíblia inteira é uma história de amor porque Deus, o Autor da Bíblia, é Amor. Por trás das sombras das guerras, da violência, do ódio, da vingança, da farsa, tão presentes na história da humanidade, a Bíblia revela que a história da humanidade com Deus é, no fim das contas, uma história de amor: amor vertical e horizontal, divino e humano, dos dois grandes mandamentos.

Esse livro bíblico deve ser ouvido em dois níveis, o divino e o humano: o noivo simboliza Deus, mas é também qualquer homem; a noiva simboliza a alma, mas é também qualquer mulher. Interpretar o livro em chave simbólica não significa abandonar a interpretação literal.

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O amor do Cântico dos Cânticos não é um amor espiritualizado que venceu a atração e o desejo corporal. Não é também um amor genérico, uma espécie de amor à humanidade, sem vínculo com pessoas concretas. O paradigma do amor do Cântico dos Cânticos é o do marido e da mulher. É amor que inclui a descoberta do outro a quem tudo se entrega sem se perder na plenitude da união pessoal. Esse amor conjugal é o melhor símbolo do amor divino porque se realiza no sair de si para se encontrar no outro. Nele está presente a força criadora, o poder fecundo, o momento eterno; está marcado por ânsia, desejo e temor.

Todos os místicos afirmam que o amor sobrenatural e o amor celeste encontram os símbolos que procuram mais no amor matrimonial do que na amizade, no sentimento filial ou na dedicação a uma causa. Algumas correntes espirituais insistem em eliminar o desejo para se libertar da dor. Mas nós acreditamos que Deus ama a alegria do ser humano, pois Ele criou tudo “para nosso bom uso” (1Tm 6,17; Amoris Laetitia 142, 149).

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No Cântico dos Cânticos, esposo e esposa dão um ao outro o máximo que é humanamente possível dar: todo o seu ser, corpo e alma, vida, tempo, amigos, bens, filhos. Nada é negado. É por isso que o anticoncepcional artificial é contrário ao matrimônio: trata-se da negação deliberada do componente procriativo, da mesma forma como o bebê de proveta é a negação do componente unitivo do amor. Deus quis que todos esses componentes fossem um, que não houvesse separação entre a entrega recíproca do homem e da mulher, a união dos dois numa só carne e a criação de uma nova vida.

O Cântico dos Cânticos não descreve o noivo e a noiva como redutos incorpóreos. O amor bíblico pressupõe pessoas como totalidade: corpo e alma. Contempla extasiado o corpo do amado e da amada. Canta e deseja o corpo. É um olhar contemplativo, não possessivo nem ciumento. Com um olhar de êxtase que sai de si, vê o corpo da pessoa amada como síntese de todas as belezas da criação: montanhas, árvores, animais. A beleza da criação esplende no corpo da pessoa amada: gazelas, cervos, trigo, o Carmelo e o Líbano. É preciso olhar contemplativo para ouvir o Cântico dos Cânticos.

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A experiência estética do amor exprime-se no olhar que contempla o outro como fim em si mesmo, ainda que o outro esteja doente, velho ou privado de atrativos sensíveis. O olhar que aprecia tem uma enorme importância. Muitas feridas e crises têm a sua origem no momento em que deixamos de nos contemplar (128).

No êxtase do amor, os amantes parecem ocupar e preencher toda a realidade e todo o livro do Cântico dos Cânticos. Parecem ser os únicos protagonistas. Poderíamos assim cair no erro de achar que o amor dos amantes esgote tudo, se baste e por isso negue o resto. Mas o Cântico nos conduz a duas escuridões, o Abismo e a Morte. É nesse momento de trevas que ocorre a grande revelação: “As suas chamas são chamas de fogo, são labaredas divinas” (8,6). Veladamente o Cântico revela: o amor é grande e invencível porque é fogo que vem de Deus. Vem de Deus porque Deus é amor.

Dom Julio Endi Akamine é arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Sorocaba.

 

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