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A abstinência do bom senso

Artigo escrito por Henrique Freire de Moraes, engenheiro pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp

Henrique Freire de Moraes

Desde a campanha eleitoral tenho sido crítico a inúmeras posições deste governo. Após sua eleição, continuo me opondo a uma série de ideias, declarações e, principalmente, nomeações no seu primeiro escalão. Dentre as últimas, Damares Alves para o recém-criado Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos foi uma das mais criticadas por mim. Razões nunca me faltaram: o risco de misturar religião com Estado, a visão conservadora nos costumes e sua total negação de verdades científicas, defendendo coisas como o ensino do criacionismo nas escolas.

Tendo dito tudo isso, não me resta outra posição a adotar frente à sua proposta de lançamento da campanha “Tudo Tem Seu Tempo”, senão apoiá-la incondicionalmente. Sim, apoiá-la!

A iniciativa ficou rapidamente conhecida como “Campanha da Abstinência Sexual”, pois defende que os adolescentes devem aguardar o fim desta fase para iniciar sua vida sexual. À primeira vista, parece uma pauta bastante conservadora, daquelas defendidas pelos religiosos e moralistas de plantão. Mas basta uma rápida reflexão sobre qual orientação você daria ou já deu para seus próprios filhos para chegar à conclusão que a campanha promove exatamente aquilo que pais responsáveis e presentes aconselham.

No entanto, assim que a campanha foi anunciada, uma enxurrada de críticas e condenações prematuras se formou nos veículos de imprensa e mídias sociais. Acusam o governo de impor a moral cristã e misturar religião e Estado. Dizem que se deixaria de investir nos programas de educação e distribuição de métodos contraceptivos e de prevenção às DSTs.

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Mesmo com sucessivos esclarecimentos da ministra Damares Alves e do próprio Ministério da Saúde, assegurando que a campanha se soma a todos os demais programas, que não serão descontinuados; as acusações prosseguem. Chegam até ponto do escárnio e desrespeito à ministra. Por fim, as manchetes sugerem que Damares busca promover uma política de estado puritana de abstinência sexual, para todos os cidadãos, com argumentos religiosos. Nada pode ser mais distante da verdade.

O filme e as peças da campanha foram divulgados na semana passada e não há nenhuma alusão moralista ou religiosa em seus argumentos. Apenas o singelo conselho de aproveitar as coisas em seu devido tempo e buscar promover o diálogo na família sobre este tema. Incrivelmente simples e carregado de bom senso. Mas não faltaram pessoas, a maior parte denominadas progressistas, dentre elas jornalistas, artistas e políticos, para confundir uma boa ideia com ideologia e, assim, encontrar na última seu alvo predileto, simplesmente por não ser a sua. Quando a discussão é ideológica, as ideias aglutinam-se e seus valores intrínsecos são substituídos pela moral da ideologia que as sequestrou. Com isso, perdem a capacidade de existir fora do contexto ideológico, e passam a ser avaliadas apenas através de posições políticas.

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E assim vimos absurdos como algumas feministas esbravejando contra a campanha de Damares, sem perceber que ela empodera as meninas, incentivando-as a serem resolutas e firmes em resistir às pressões de seus namorados. Também passou despercebido a este mesmo grupo o combate ao machismo estrutural que a campanha abraça, quando faz os pais refletirem sobre permitir que suas filhas de 14 anos vivam com homens muito mais velhos e tenham filhos com eles. Sim, isso acontece no Brasil, talvez não nos bairros de classe média das grandes cidades, mas aventure-se pelo interior de alguns estados do Nordeste, ou mesmo de São Paulo, e verá que é real.

A polêmica toda também me fez rir, quando li na coluna de um grande jornal as palavras de uma jovem progressista e, aparentemente, em abstinência compulsória. A escritora, em revolta ao conselho de Damares, conclama os jovens a iniciar a prática do sexo o quanto antes, e relembra de forma nostálgica suas aventuras sexuais nas escadas de incêndio do prédio de seus pais ou do seu local trabalho. Depois, ela mesma confessa que hoje sua vida sexual anda desinteressante, e resolve ter seu momento catártico às custas da ministra. A colunista parece mais uma adolescente de 40 anos que ainda não conseguiu livrar-se da autopiedade, da insegurança e dos antidepressivos.

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Mas já me arrependi por haver rido. É trágico e desesperador assistir até onde se pode chegar em defesa das ideologias às quais estas pessoas se mantêm abraçadas; ainda que todos os fatos e a mais pura razão lhes mostre o quão erradas estão. É quase impossível imaginar que, bem lá no fundo, não sintam vergonha, ou pelo menos, constrangimento. Mas já é tarde demais. Já houve “lacração” demais nas redes sociais. Já perderam amigos e se afastaram de familiares pela “causa”. Já resistiram tanto e ninguém soltou a mão de ninguém. Os fascistas estão chegando! Melhor abster-se do bom senso e continuar lutando.

Henrique Freire de Moraes é engenheiro pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, com Especialização em Liderança e Negociações Estratégicas por Oxford e Harvard.

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