A lua de Saramago

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Não, eu não acredito que a inteligência artificial vai ser capaz de superar a capacidade humana de fazer poesia. E quem me faz crer nisso é o conto de José Saramago "Uma luz inesperada", retirado do livro "A bagagem do viajante", de 1973. O conto narra uma memória de infância, em que o narrador, aos doze anos, acompanha o tio em uma longa caminhada até a feira de Santarém, levando uma ninhada de porcos para vender. Durante a viagem, entre o cansaço, a simplicidade da vida no campo, os cheiros, os sons e as pequenas aventuras do caminho, acontece algo aparentemente simples, mas que se torna inesquecível: ao acordar ainda de madrugada, o menino se depara com uma lua enorme e luminosa, que transforma completamente a paisagem. Na volta, outro acontecimento extraordinário: uma cortina circular de chuva envolve a paisagem, enquanto ele e o tio permanecem secos no caminho.

Diante daquela experiência de beleza e mistério, o menino sente uma vontade imensa de chorar e, sozinho, olhando para o mundo, faz uma promessa a si mesmo: "não morrer nunca". Muito antes de sabermos explicar o mundo, nós o sentimos. Antes de nomearmos o espanto, já nos espantamos; antes de compreendermos a perda, já sofremos; antes de formularmos qualquer conceito sobre a beleza, alguma coisa bela já nos interrompeu por alguns instantes. Há emoções que parecem anteriores às palavras e que atravessam os séculos sem envelhecer. Permanece extraordinariamente familiar o gesto de uma criança que olha para alguma coisa pela primeira vez e se deslumbra.

Talvez a tecnologia possa transformar quase tudo ao redor desse instante, mas não o que reverbera dentro de nós quando ele acontece. Voltando a Saramago, a construção textual que sobremaneira me encanta é a seguinte: "Acordei quando meu tio me chamou, madrugada alta. Sentei-me na manjedoura e olhei para a porta, com os olhos piscos de sono e deslumbrados por uma luz inesperada. Saltei para o chão e vim ao pátio: na minha frente estava uma lua redonda e enorme, branca, entornando leite sobre a noite e a paisagem. Era tudo branco refulgente onde a lua dava e negro espesso nas sombras. E eu que só tinha doze anos, como já ficou dito, adivinhei que nunca mais veria outra lua assim. Por isso é que hoje me comovem pouco os luares: tenho um dentro de mim que nada pode vencer." Minha frase preferida desse trecho é: "tenho um dentro de mim que nada pode vencer". Aquela lua já não pertence apenas ao céu. Depois de atravessar os olhos do menino, tornou-se memória, emoção e linguagem. Tornou-se uma espécie de paisagem interior. E é dessa matéria que somos feitos também. Carregamos dentro de nós lugares que já não existem, vozes que não podemos mais ouvir, aromas que remetem a uma infância inteira, medos de origem desconhecida, alegrias gratuitas. Uma música pode devolver uma noite de décadas atrás.

A modernidade alterou radicalmente nossos modos de viver, mas não eliminou essa antiga capacidade humana de ser afetado pelo mundo. Talvez por isso a promessa daquele menino de doze anos — "não morrer nunca" — continue sendo compreensível para alguém que a lê tantas décadas depois. Há nela alguma coisa ancestral. Diante da beleza absoluta, ele não deseja possuí-la, fotografá-la ou explicá-la. Deseja permanecer. Como se, diante da intensidade de estar vivo, descobrisse ao mesmo tempo a impossibilidade de aceitar que um dia deixará de estar. Porque a subjetividade humana jamais poderá ser plenamente substituída. Há algo em nós que não se reduz à informação, ao cálculo ou à combinação de palavras: a capacidade de atribuir sentidos àquilo que vivemos, de transformar memória em metáfora, silêncio em linguagem, experiência em poesia. A literatura não é apenas aquilo que as palavras dizem.

É também tudo aquilo que precisou de uma vida inteira para acontecer e então ser escrito. Diante de José Saramago, eu me lembro de que a poesia da mente humana é um território que nenhuma inteligência artificial pode habitar por nós. E talvez seja importante lembrar isso justamente agora, quando tantas tecnologias parecem empenhadas em antecipar nossos desejos, responder a nossas perguntas, selecionar aquilo que veremos e ocupar até os menores intervalos de silêncio. Há uma dimensão da experiência humana que depende precisamente do contrário: da demora, da distração, da disponibilidade para perceber aquilo que não estávamos procurando. Acredito que uma das questões fundamentais do nosso tempo não seja saber se as máquinas aprenderão a produzir poemas, pinturas, músicas ou histórias. Talvez seja saber se continuaremos disponíveis para aquilo que, desde muito antes de qualquer máquina, fazia nascer poemas, pinturas, músicas e histórias dentro de nós.

O assombro não pode ser programado. Ele acontece. Dos meus assombros diários, posso enumerar alguns: o canto do sabiá quando o sol nasce; a pista brilhante de um caracol que acabou de atravessar a calçada ou os túneis moldados pelas minhocas usando a umidade do orvalho. Coisas ordinariamente extraordinárias que ninguém ainda deu conta de reproduzir. E eu podia passar um dia inteiro listando miudezas. Talvez essas miudezas nos recordem que sentir continua sendo uma experiência radicalmente corporal e humana. Foi assim com a lua de Saramago. Outros certamente a viram naquela madrugada. Mas aquela lua atravessou um menino e permaneceu nele durante uma vida inteira. Tempos depois, transformada pela memória, encontrou palavras. E as palavras fizeram com que uma experiência particular pudesse tocar pessoas que nunca viram aquela lua. Talvez as máquinas possam aprender nossos padrões, nossas estruturas linguísticas, nossas formas narrativas e até reproduzir com impressionante habilidade os sinais exteriores daquilo que chamamos criação. Mas permanece conosco a experiência inaugural: estar no mundo, dentro de um corpo, submetido ao tempo, sabendo que vamos morrer e, apesar disso, sermos capazes de nos comover com uma lua. Talvez a maior ameaça à poesia não seja uma inteligência artificial capaz de escrever versos. Talvez seja uma humanidade que já não tenha tempo para olhar a lua.

Vanessa Marconato Negrão é professora, ambientalista e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras.

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