Escutar para crer, crer para anunciar

A Palavra de Deus só produz frutos em nós quando é escutada e bem meditada

Por Cruzeiro do Sul

Ler e crer

Pregar implica anunciar a Palavra de Deus. Porém, o anúncio tem uma condição prévia e indispensável para sua eficácia: a escuta da Palavra. Anunciar pressupõe, antes, escutar a Palavra. Hoje existem muitos cursos de oratória, mas o principal curso, para nós, cristãos, é o de "escutatória". Antes da pregação exterior, vem a pregação interior; ou seja, antes do anúncio, vem a meditação da Palavra. Há uma diferença entre escutar com os ouvidos e escutar com o coração.

A Palavra de Deus só produz frutos em nós quando é escutada e bem meditada. É a arte de escutar com o coração. A leitura da Palavra, seguida da meditação, leva, segundo São Paulo, ao "sublime conhecimento de Jesus Cristo" (Fl 3,8). É o que ensina o salmista: "na intimidade, Senhor, me ensinais sabedoria" (Sl 51,8). Escutar a Palavra é colocar-se junto ao poço de Jacó (cf. Jo 4,1-26) e, como a samaritana, escutar o Mestre até descobrir a "água viva", sentir sede dela e, confiantemente, pedir ao Senhor que nos dê sempre dessa água. Escutar é ter a atitude de Maria, irmã de Marta e Lázaro: saber sentar-se aos pés de Jesus com a certeza de estar escolhendo a melhor parte (cf. Lc 10,38-42). Escutar é aprender a abrir o coração para receber as palavras de quem sabemos que nos quer bem, que nos ama. A conversão começa quando abrimos espaço em nosso coração para acolher a Palavra. Quando Deus se dirige a nós, aguarda pacientemente nossa resposta, nossa conversão. Espera uma atitude de fé!

A fé nos capacita a acolher o mistério de Deus em nossa vida e a nos tornarmos verdadeiramente discípulos de Cristo. As pessoas de fé, afirma Santo Agostinho, "fortificam-se acreditando". O bispo de Hipona tinha boas razões para falar assim: como sabemos, sua vida foi uma busca contínua da fé. Portanto, só acreditando é que a fé cresce e se revigora. Existe uma unidade profunda entre o anúncio da Palavra e o ato de fé. Quem afirma isso é São Paulo: "Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé" (Rm 10,10). O coração indica que o primeiro ato pelo qual se chega à fé é dom de Deus, ação da graça que transforma a pessoa até o mais íntimo de si mesma. A esse respeito, é muito eloquente o exemplo de Lídia. Segundo a narrativa dos Atos dos Apóstolos, São Paulo, encontrando-se em Filipos, foi num sábado anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava Lídia: "O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia" (At 16,14). Para que a Palavra de Deus nos leve à conversão, é necessário que, primeiramente, a graça divina abra nosso coração. Em nossa meditação diária da Palavra de Deus, peçamos a graça da conversão para todos aqueles a quem anunciaremos o Evangelho, com a palavra ou com o testemunho de vida.

O episódio de Emaús (cf. Lc 24,13-35) evidencia com muita clareza a primazia da escuta atenta da Palavra. Enquanto os dois discípulos conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles, seguindo o mesmo ritmo deles. Em seguida, explicou-lhes as Escrituras, iluminando à luz da Palavra os acontecimentos ocorridos em Jerusalém. Foi essa escuta que transformou os sentimentos daqueles discípulos: a tristeza em alegria, a lamentação em festa. É isso o que ocorre também em nossa vida. A Palavra lida, meditada e anunciada nos conduz à presença de Deus e transforma nossos corações e mentes.

Enfim, que o Senhor nos ensine a escutar a Palavra com profundidade, a crer com firmeza e a anunciar com alegria. Essa é a dinâmica própria da fé cristã: escutar para crer, crer para anunciar!

Dom José Roberto Fortes Palau é arcebispo de Sorocaba.