Lulinha quem?
Nos que mediei, em outros tempos, os contendores perguntavam como o adversário resolveria este ou aquele problema
Dois dias após o debate na Band, Lula "acusou o golpe" numa postagem nas redes: "Eu me senti muito incomodado em participar de um debate com um miliciano". Parece a confissão de que apanhou no confronto e um aviso de que não gostaria de repetir o "debate com um miliciano". Mais uma vez, Lula culpa os outros pelos próprios erros. As considerações finais de Lula no debate da Band geraram a frase mais repetida nas redes digitais: "No quarto mandato, a gente vai dizer: o Brasil acabou." Quando ouvi isso, no domingo, lembrei-me do mais importante debate entre todos os que mediei.
Quando Lula teve, por sorteio, a oportunidade da última manifestação oral antes do 2º turno que disputava com Collor, ele concluiu assim: "Muito obrigado. Eu espero que minha participação neste debate possa ter contribuído para dizer que o famoso caçador de marajás não passa de um caçador de maracujás." Dona Marisa e o assessor de comunicação Ricardo Kotscho, sentados na primeira fila do mesmo auditório da Band, levantaram-se perplexos e foram embora, com cara de desastre. No domingo, Janja e Sidônio Palmeira não se retiraram, mas estavam com as mesmas caras que vi em 1989. Janones acabou na UTI.
Naquela época, eram dois jovens se digladiando: Lula tinha 44 anos e Collor, 40. Agora Lula está com 80 e Flávio tem 45 — e isso fez diferença, mas o Lula jovem já desperdiçava as considerações finais. Esta é a sétima campanha presidencial de Lula. Penso que Lula e os que o aconselharam para esse debate estavam confiantes de que a experiência iria prevalecer. Foram traídos pelo excesso de confiança, assim como já haviam sido surpreendidos pelo resultado do 1º turno. Flávio começou estabelecendo ligações com a plateia, os telespectadores, os mediadores e o adversário — aproximou-se para conversar com a câmera. Lula esqueceu-se de fazer isso.
Flávio, como um boxeador que precisava desestabilizar logo o adversário, bateu no primeiro round: Roberta! Lulinha! Atingido, Lula transferiu a resposta sobre Roberta para a Polícia Federal. E foi buscar um copo d'água. "Lulinha, conhece Lulinha?", insistiu Flávio. E Lula, parecendo Biden: "Quem?" Espanto e risos na plateia. Flávio sorriu e repetiu, quase soletrando: "Lulinha!" Aí Lula acordou: "É meu filho! É inocente!" No intervalo, Sidônio Palmeira reclamou de Flávio por ele se postar atrás de Lula, sendo sempre captado pela câmera que focalizava o petista, com gestos de negação ou rindo. O regulamento que as partes assinaram não proibia movimentação no cenário. Provavelmente foi orientação de Pablo Marçal a Flávio, para evitar que Lula aparecesse sozinho nos cortes que a campanha petista destinaria às redes sociais.
Flávio deixou sem resposta algumas perguntas de Lula, que poderia responder com facilidade, já que parte delas havia respondido a Renata Lo Prete, na sabatina da Globo. Por quê? Certamente para que sejam repetidas no debate final e não surjam perguntas novas, sobre novos temas. Foi um debate em que as emoções ocuparam o lugar do conteúdo, com pouca discussão das questões nacionais. Nos que mediei, em outros tempos, os contendores perguntavam como o adversário resolveria este ou aquele problema. Depois da resposta, quem perguntou usava a tréplica: eu faria assim e assado; o que ele propõe não dá resultado. Enfim, no domingo houve um confronto entre passado e futuro, continuidade e mudança, um idoso e um jovem. Terá servido para conquistar indecisos? Ainda haverá o de sexta, na Globo?
Alexandre Garcia é jornalista.
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