A maldição da comparação

Por Cruzeiro do Sul

A arte da comparação

Em 1954, o psicólogo social Leon Festinger desenvolveu a Teoria da Comparação Social, segundo a qual os seres humanos possuem uma tendência natural de avaliar suas opiniões, capacidades e conquistas observando outras pessoas. Estudos posteriores demonstraram que nos comparamos para descobrir como estamos nos saindo, aprender com quem consideramos melhor do que nós e, em algumas situações, proteger nossa autoestima.

O problema começa quando a comparação deixa de ser uma referência para nosso crescimento e passa a determinar nosso valor, nossa felicidade e nossa importância. Nesse momento, aquilo que poderia nos ajudar a melhorar começa a comprometer nossa maneira de enxergar a vida.

No Evangelho de Mateus, capítulo 20, Jesus conta uma história que ilustra muito bem esse problema. Um proprietário contrata trabalhadores em diferentes horários do dia. Alguns começam logo pela manhã, enquanto outros são contratados quando o expediente está quase terminando. Surpreendentemente, ao final do dia, todos recebem o mesmo pagamento. Aqueles que trabalharam desde cedo, embora tenham recebido exatamente o valor combinado, ficam indignados ao descobrir que os demais receberam a mesma quantia.

Essa história revela pelo menos cinco prejuízos que a comparação pode produzir em nossa vida.

Primeiro, a comparação distorce nossas expectativas. Os trabalhadores que chegaram primeiro imaginaram que receberiam mais simplesmente porque os últimos haviam recebido o mesmo valor. Algo semelhante acontece quando comparamos nossa aparência com a de pessoas mais jovens, nossas conquistas com as de amigos ou nossa situação financeira com a de nossos pais. Passamos a estabelecer expectativas que desconsideram nossas circunstâncias, limitações e oportunidades.

Segundo, a comparação estimula a insatisfação. Os primeiros trabalhadores estavam satisfeitos com o pagamento até descobrirem quanto os outros haviam recebido. Nada lhes foi tirado, mas a satisfação desapareceu. Também podemos transformar aquilo que temos em motivo de reclamação simplesmente porque alguém recebeu algo diferente. A comparação pode fazer com que benefícios antes valorizados pareçam insuficientes.

Terceiro, a comparação compromete nossos relacionamentos. Os trabalhadores não reclamaram apenas do pagamento, mas do fato de terem sido colocados na mesma condição daqueles que trabalharam menos. É assim que colegas se transformam em concorrentes, irmãos passam a disputar o reconhecimento dos pais e até casais começam a competir entre si. Onde deveria existir cooperação, instala-se a rivalidade.

Quarto, a comparação pode distorcer nosso senso de justiça. O proprietário cumpriu integralmente o acordo estabelecido. Sua decisão de ser generoso com os últimos trabalhadores não representava uma injustiça contra os primeiros. Isso não significa que toda diferença de tratamento seja justa, mas nos convida a reconhecer que a justiça não se resume à recompensa pelo mérito. Há também espaço para a generosidade. Nem tudo o que alguém recebe precisa ser conquistado para ser legítimo.

Quinto, a comparação alimenta a inveja. Ao responder às reclamações, o proprietário pergunta se os trabalhadores estavam com inveja porque ele havia sido generoso. Essa pergunta revela uma das consequências mais destrutivas da comparação: a dificuldade de celebrar aquilo que acontece de bom na vida dos outros. O talento de alguém, seu reconhecimento profissional ou sua prosperidade passam a provocar tristeza em vez de alegria.

Como podemos nos proteger dessa armadilha? O primeiro passo é parar de medir nossa vida pela vida dos outros. Cada pessoa possui uma história, oportunidades e circunstâncias diferentes. Nem tudo o que os outros conquistaram precisamos conquistar também.

Além disso, precisamos substituir a reclamação pela gratidão. Antes de lamentar aquilo que não recebemos, vale reconhecer tudo o que já nos foi concedido. A prosperidade dos outros não deveria nos tornar incapazes de agradecer pelo que temos.

Também precisamos aprender a celebrar as conquistas alheias. O sucesso de outra pessoa não representa necessariamente o nosso fracasso. A generosidade recebida por alguém não diminui aquilo que recebemos.

Finalmente, precisamos compreender que nosso valor não depende de nossa superioridade. Não precisamos ser mais ricos, admirados ou bem-sucedidos do que os outros para encontrar significado em nossa existência.

Essa é uma das grandes contribuições do Evangelho: Jesus nos ensina que o amor de Deus não funciona como uma competição. Na cruz, Cristo oferece gratuitamente aquilo que jamais poderíamos conquistar por nossos próprios méritos. Quando compreendemos que somos alcançados por essa graça, deixamos de olhar para a vida como uma disputa permanente.

Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Training Center, professor de Homilética e Prática da Pregação no Seminário Presbiteriano do Sul e pastor plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.

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